Há momentos em que tudo parece desmoronar. Os planos que um dia estavam vivos começam a secar nas mãos, o que antes era claro se torna nebuloso, e a vida, que tanto insistimos em controlar, resolve apertar o freio sem pedir licença. É nessa hora que a gente sente o corte. E dói. Inevitavelmente um dia acontece comigo e com você.
Mas o que parece perda, às vezes, é apenas Deus aparando os excessos. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.” (Eclesiastes 3:1)
A poda é o tipo de amor que a gente não entende de imediato. Porque o agricultor não corta o ramo por desprezo, mas por amor. Ele vê o que o ramo não enxerga, que se continuar crescendo de qualquer jeito, vai se enroscar em si mesmo, vai secar por dentro, vai deixar de frutificar. Então ele corta. E enquanto o ramo sangra, o agricultor sorri, sabendo que ali começa um novo ciclo. Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.”
Há algo de profundamente íntimo nessa imagem, porque o corte de Deus nunca é aleatório. Ele não age por impulso, não fere por descuido. Ele toca onde dói porque sabe que é ali que o fruto nascerá mais forte.
Mas nós, humanos, temos um defeito antigo: o da autossuficiência. Gostamos de pensar que damos conta.
Que basta tentar mais, correr mais, planejar melhor. Somos especialistas em resolver as coisas na força. E a poda vem justamente pra lembrar que força sem dependência é vaidade. Ela desmonta nossos planos bem desenhados, derruba as certezas que nos faziam sentir seguros, e nos obriga a encarar o vazio entre o que fomos e o que ainda seremos.
“Nenhuma disciplina parece motivo de alegria no momento, mas depois produz fruto de justiça e paz.” (Hebreus 12:11) Esse “depois” é o tempo da poda. O tempo em que não há flores, nem frutos, nem aplausos, só silêncio.
Silêncio e espera. Mas é nesse terreno seco que Deus trabalha o que ninguém vê. Enquanto a gente tenta entender, Ele está preparando o que vai nascer de novo. Zacarias escreveu que Deus prova e purifica como ouro e prata.
E o ouro só brilha depois de enfrentar o fogo. Assim também somos nós: o calor das circunstâncias não vem pra nos destruir, mas pra revelar o que é verdadeiro.
A poda é o fogo do coração, o abalo que remove o que é passageiro pra que permaneça o eterno.
“Tudo que pode ser abalado será abalado, para que permaneça o que é eterno.” (Hebreus 12:27)
É curioso como Deus faz isso em silêncio. Não há barulho quando Ele corta, só um sussurro no fundo da alma.
Às vezes, parece que Ele está distante, mas na verdade é o contrário, é quando Ele mais se aproxima. A poda é o toque de um Pai que se importa demais pra deixar a gente viver estéril. E quando tudo parece incerto, resta apenas a oração que Davi sussurrou: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração…” (Salmos 139:23)
A poda começa dentro. Nos pensamentos que Deus precisa reordenar, nos sentimentos que precisam ser dissecados, nos desejos que ainda não cabem no futuro que Ele está preparando. Ela é o processo silencioso da alma sendo podada pra frutificar. E é nesse processo que a gente entende que nada é permanente nem a dor, nem o deserto, nem o silêncio. Tudo passa, exceto Deus e Suas promessas. A poda não é o fim. É o prenúncio de um novo começo.
Vencemos as temporadas difíceis não resistindo a elas, mas sobrevivendo nelas com fé.
Porque até as podas são temporárias, e os que permanecem na videira, florescem de novo.
Não como antes, mas com raízes mais fundas e frutos mais doces. Porque quem já foi podado por Deus, nunca mais cresce do mesmo jeito.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
