O início de Livro de Josué não chega como uma história distante. Ele encoraja e também nos confronta. É como se, logo nas primeiras páginas, Deus colocasse diante de nós duas formas de viver a fé: uma construída pelo que se vê… e outra sustentada pelo que se escolhe acreditar. De um lado, Raabe. Ela não atravessou o mar, não caminhou pelo deserto e nem viu o céu prover alimento dia após dia. Não tinha histórico, não tinha repertório, não tinha testemunho próprio. Tinha apenas relatos. Tudo o que ela havia ouvido falar de um Deus que ela nunca tinha visto agir com os próprios olhos. E, ainda assim… ela creu e mais, se posicionou.
Enquanto muitos que viram milagres colecionavam dúvidas ao longo do caminho nos primeiros livros da bíblia, Raabe, ao ouvir, reconheceu. Temer não a paralisou e sim a conduziu. E quando a oportunidade chegou, sua fé não foi pequena, nem egoísta. Ela não pediu apenas por si. Intercedeu pela sua casa, pela sua família, pelos seus. Como se já entendesse algo que leva tempo para amadurecer dentro de nós: fé verdadeira nunca é isolada, ela sempre alcança outros. Então a narrativa avança no livro de Josué e o cenário muda. Agora não é mais sobre alguém que ouviu, é sobre um povo que viu e precisava atravessar o rio Jordão para chegar à terra prometida. O Jordão estava cheio, transbordando…Não havia caminho aberto, não havia sinal antecipado, não havia qualquer evidência que tornasse o próximo passo confortável. E Deus não disse “esperem”. Deus disse, na prática: entrem. Os sacerdotes pisaram na água. E só depois disso o rio recuou. O milagre não veio antes da coragem, veio depois do movimento, daquele passo de fé.
E isso confronta porque mostra algo que a gente nem sempre quer encarar: chega um ponto em que a fé deixa de ser alimentada pelo que Deus já fez… e passa a ser provada pelo que fazemos com o que sabemos. Raabe ensina a crer sem ver e a travessia do Jordão ensina a andar sem garantias. E, no fundo, os dois contam a mesma história. Deus não está procurando quem tem todas as confirmações, nem quem viu tudo acontecer. Ele está procurando quem confia o suficiente para se mover mesmo quando ainda não faz sentido completo.
E é impossível não trazer isso para perto. Não sentir esse texto nos alcançando nos lugares em que a gente hesitou. Nas vezes em que a gente pediu mais um sinal, mais uma certeza, mais uma segurança antes de obedecer. Isso é tão humano. Talvez não fosse falta de fé, mas excesso de controle. Porque existe algo sobre os planos de Deus que, quando são completamente compreensíveis, talvez já não sejam tão dependentes dEle assim. Se cabe perfeitamente na nossa lógica, se fecha sem sobras, sem tensão, sem necessidade de entrega… onde entra o espaço da confiança? Há um tipo de fé que tenta organizar tudo antes de dar o passo.
E há uma fé que entende que o próprio passo é o que abre o caminho. E talvez seja isso que mais nos provoca: não é sobre ignorar o medo, mas sobre não negociar a obediência por causa dele. Porque há portas que se abrem diante de nós. Mas há rios… que só se abrem depois que entramos.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
Love love love, Lu.
