Quando tudo sai do lugar, a fé encontra espaço

Tem gente que nasce com uma necessidade de controle. Não daquele controle rígido que se impõe aos outros, mas de um tipo mais íntimo, que organiza a vida por dentro. Planos bem traçados, rotinas alinhadas, caminhos pensados com antecedência. Era assim com a gente. Metódicos, organizados, acreditando — ainda que sem perceber — que, de alguma forma, estávamos conduzindo tudo. Até que, aos poucos, temos aprendido a entregar. 

Não de uma vez, nem de forma grandiosa. Mas na prática, no cotidiano, nas pequenas decisões em que escolhemos confiar mais do que prever. Entregar o controle para Deus foi menos sobre abrir mão e mais sobre reconhecer que nunca foi nosso de verdade. E então, como se a vida resolvesse testar a profundidade dessa entrega, veio um filho. Muito desejado.

E um filho não chega apenas como alguém novo. Ele chega como um redesenho completo. Ele nos tira do centro sem pedir licença. O tempo já não é mais o mesmo, os planos deixam de ser lineares, e aquilo que parecia prioridade começa a se reorganizar.  E, como se não bastasse, vieram algumas obras, sem aviso prévio. 

Uma à distância, daquelas que exigem decisões sem presença, confiança sem controle. Outra, próxima e inesperada, invadindo a rotina, ocupando espaço, fazendo da sala um acampamento provisório. Sem prazo definido, com custos novos, com aquela sensação constante de “quando isso vai acabar?”. A vida tem um jeito curioso de ensinar. Ela não pede licença, não agenda, não consulta o melhor momento. Ela simplesmente bagunça. É daquelas que desorganizam para reorganizar melhor.

No meio do improviso, do desconforto e das adaptações, a gente começa a enxergar o que antes passava despercebido. O que é prioridade de verdade, o que é acessório, o que é fundamental e o que pode esperar e o que não pode. A gente aprende a dançar conforme a música, mesmo quando não foi a trilha que escolheu. Aprende jogo de cintura, a rir no meio do caos e que nem tudo precisa estar resolvido para estar em paz. E talvez o mais bonito seja perceber que Deus não desperdiça nada. Nem o atraso, nem o imprevisto, nem o vazamento inesperado que, no fim, revela um mofo que a gente não via. Nem o desconforto de ter a casa fora do lugar ou do cansaço de dias que não saem como planejado. Tudo vem carregado de um tipo de ensinamento que só a vida real entrega.

E a gente segue… Rindo, ajustando, tocando o barco. Com mil planos para esse filho que chegou  e com a consciência tranquila de que muitos deles ainda vão ser redesenhados no meio do caminho. Aos poucos, a gente aprende que não é sobre ter tudo sob controle. É sobre confiar enquanto tudo se transforma.

“A cada dia basta a sua preocupação”, já dizia. E, quando a gente olha com mais calma, percebe: o copo nunca esteve meio vazio. Era só a nossa perspectiva que ainda estava sendo ajustada. 

Love love love, Lu. 

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