Essa constatação me veio, enquanto eu fazia algo completamente comum: colocar meu filho no tapetinho para fortalecer o pescoço. Quem vê de fora, talvez não entenda. É só um bebê de bruços, tentando sustentar a própria cabeça. Mas quem está ali, perto, escuta o esforço, nota o incômodo. Percebe o tempo curto de tolerância antes do choro começar. Ele não entende o propósito. Só sente o desconforto. E ainda assim, é exatamente esse desconforto que vai dar a ele sustentação. É ali, naquele esforço desajeitado e super breve, que o corpo começa a aprender o que ainda não sabe. Mas ele não vê isso, só reage e chora depois de alguns minutos.
Enquanto isso, eu observo, não com indiferença, mas com uma calma que só existe porque eu sei o que ele ainda não sabe. Eu sei que vai passar. Eu sei que é necessário. Eu sei que, de alguma forma, esse pequeno desconforto está construindo algo muito maior.
E foi nesse mesmo estado de atenção que, horas depois, segurando ele no colo durante a amamentação, veio outro episódio. Nenem super tranquilo, sendo alimentado e confortável na mama esquerda. Depois de um tempo, como sabia que o outro lado estava cheio, fiz o que precisava ser feito: tirei ele de onde estava e o levei para um lugar melhor. Mas, nesse intervalo mínimo entre um peito e outro, parecia que o mundo dele tinha desabado. Ele chorou e se debateu, como se aquilo fosse tudo o que existia de bom. Não havia compreensão, só reação só resistência. Até que, ao encontrar o outro lado, e abocanhar o mama se acalmou. Eu ri. Porque, de novo, eu tinha a visão que ele não tinha. Eu sabia que aquela transição não era perda, era cuidado e provisão. Não era interrupção, era continuidade em outro nível.
E, de repente, ficou impossível não nos enxergar ali. Quantas vezes nós também não nos debatemos quando somos tirados de um lugar confortável? Quantas vezes não chamamos de perda aquilo que, na verdade, é redirecionamento? Quantas vezes não resistimos, choramos, questionamos porque simplesmente não conseguimos ver o que Deus já está vendo?
A gente gosta de acreditar que amadureceu, que entende, que confia. Mas basta uma mudança inesperada, um plano interrompido, um caminho alterado e lá estamos nós, tentando voltar para o “peito antigo”, como se aquilo fosse o único lugar possível de descanso. Sem perceber que, muitas vezes, é só Deus nos trocando de peito.
Não porque o anterior era ruim, mas porque existe algo mais adequado, mais necessário, mais completo naquele momento. Só que o intervalo entre um e outro… esse quase ninguém gosta de viver. Porque é ali que a gente perde o controle. E talvez seja justamente por isso que a fé se parece tanto com esse lugar de transição. Não entendemos tudo, mas precisamos confiar em quem entende. Quando eu olho para o José Pedro chorando por alguns segundos antes de se acalmar, eu não vejo fraqueza. Vejo processo.
E quando olho para mim mesma, começo a suspeitar que Deus também não vê fraqueza no meu choro. Ele vê crescimento. Minha conclusão é, somos todos recém-nascidos em comportamento quando avaliados pelo olhar do Pai.
Love love love, Lu.
