A pergunta surgiu numa conversa simples na cozinha, mas daquelas que carregam um peso difícil de explicar. No meio de tantas notícias, de tanto mau-caratismo escancarado, de tanta maldade que parece não ter mais vergonha de existir, meu marido perguntou: será que essas pessoas dormem bem? Será que têm paz?
Na hora, eu respondi sem pensar muito. Disse que não. Que não era possível viver assim e ter paz. Mas depois fiquei pensando… talvez a resposta não seja tão simples. Talvez elas durmam, sim. Talvez vivam a rotina, cumpram seus dias, sigam suas vidas aparentemente normais. Mas sem nunca terem experimentado o que é, de fato, paz. Existe um tipo de inquietação que, quando vira rotina, deixa de ser percebida. Tem gente que vive ansiosa todos os dias e já nem questiona mais. Que deita e não consegue desligar a mente, mas acha que isso é só “cansaço”. Pessoa que precisa de remédio pra dormir e aceita isso como parte da vida. E talvez nem desconfie que o problema não está no sono. Está no coração.
O pecado não chega destruindo tudo de uma vez. Ele vai anestesiando aos poucos. No começo, incomoda. Depois, já não parece tão grave. E, com o tempo, simplesmente não incomoda mais. Não porque deixou de ser errado, mas porque o coração vai ficando endurecido. Vai quebrando um princípio aqui, relativizando outro ali, até que já não existe mais uma régua clara. E quando não existe régua, qualquer coisa parece aceitável. E como alguém pode sentir falta de paz se nunca experimentou a verdadeira? Como comparar, se não existe referência?
Talvez seja por isso que tantas pessoas continuam vivendo dessa forma. Não é só escolha consciente. Muitas vezes a pessoa nem sabe que existe algo diferente e vive num estado constante de inquietação e chama isso de normal. Eu penso nisso com um certo cuidado, porque já estive desse lado. Eu sei o que é viver com um incômodo constante, uma sensação de que algo está fora do lugar, mas sem conseguir nomear exatamente o que é. Tentando preencher com distrações, com coisas do mundo, com qualquer coisa que fizesse aquele vazio parecer menor. Mas ele nunca diminuía de verdade.
Hoje eu sei que era o Espírito Santo. Mas, naquela época, eu ignorava. E quanto mais ignorava, mais fácil ficava continuar ignorando. Até que o incômodo foi ficando cada vez mais distante. E isso é o mais perigoso de tudo. Porque quando o pecado já não incomoda, não é sinal de que está tudo bem. É sinal de que algo dentro de nós parou de reagir. Por isso essa oração faz tanto sentido pra mim hoje. “Sonda o meu coração, vê se há em mim algum caminho mau, e me guia.” Porque existe um risco real de se perder aos poucos, de se acostumar com aquilo que deveria nos confrontar.
Depois que a gente experimenta a paz que excede todo entendimento, é muito difícil querer voltar para o lugar antigo. Não porque a vida fica perfeita, mas porque o coração encontra um descanso que não depende das circunstâncias. E quando você conhece esse lugar, qualquer outra coisa parece incompleta. Talvez essas pessoas até durmam. Mas paz… paz mesmo… é outra coisa. Isso elas não tem.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
Love love love, Lu.
