Existe uma pergunta que nasce automaticamente dentro de nós quando a vida sai do roteiro. Quando chega uma doença, uma perda, uma decepção, uma injustiça, uma porta fechada ou uma dor que não pedimos para carregar, quase sempre a primeira reação é a mesma: “Por que eu?” É uma pergunta humana.
Mas, refletindo sobre as conversas da célula que participei, concluímos que existe uma linha muito tênue entre a revolta e a fé. E, muitas vezes, essa linha é atravessada justamente pela forma como respondemos a essa pergunta. Porque, se somos sinceros, gostamos das promessas de Deus, mas nem sempre gostamos do caminho que nos leva até elas.
A verdade é que ninguém deseja passar por desafios. Ninguém acorda pedindo sofrimento, renúncia ou aflições. Porém, em algum momento, elas chegam. Chegam para os justos e para os injustos. Para os fortes e para os fracos. Para aqueles que acabaram de começar a caminhada e para aqueles que já andam com Deus há décadas. E então surge a pergunta: “Por que eu?” Mas talvez a fé madura faça nascer uma pergunta diferente: “Por que não eu?”
Se Deus não prometeu uma vida sem aflições, por que eu seria a exceção? Se Jesus disse que no mundo teríamos aflições, por que eu imaginaria que minha vida seria isenta delas?
Se o próprio Pai não poupou Seu Filho do sofrimento, da rejeição e da cruz, por que eu acreditaria que jamais enfrentaria dores? Não se trata de desejar o sofrimento. Trata-se de compreender que ele faz parte da jornada de quem vive neste mundo. A diferença está em como reagimos quando ele chega.
A revolta pergunta: “Por que isso está acontecendo comigo?” A fé pergunta: “O que Deus quer formar em mim através disso?”
A revolta luta para arrancar o controle das mãos do Pai. A fé aprende a se render.
E talvez não exista oração mais difícil do que a feita por Jesus no Getsêmani. Diante da maior dor que alguém poderia enfrentar, Ele não negou Sua angústia, não fingiu coragem e não escondeu Seu sofrimento. Ele apenas orou:
“Pai, se possível, afasta de mim este cálice. Contudo, não seja feita a minha vontade, mas a Tua.”
Ali estava a diferença entre fugir da vontade de Deus e se render a ela. A fé verdadeira não é aquela que existe apenas quando tudo dá certo. Ela aparece quando a resposta é diferente da que esperávamos. Quando o milagre demora, quando a porta permanece fechada e quando o cálice não é afastado. É nesse lugar que o joio e o trigo começam a ser separados. Porque é fácil declarar confiança quando tudo está bem. Difícil é permanecer rendido quando Deus não faz o que gostaríamos que Ele fizesse. Mas talvez seja exatamente aí que a fé deixa de ser um discurso e se torna convicção.
Talvez a pergunta que mais transforma o coração não seja “Por que eu?”, mas “Pai, se essa é a Tua vontade, como posso atravessar isso contigo?”
Porque a rendição não elimina a dor. Ela apenas nos lembra que nenhuma dor é maior do que a soberania de Deus. E quando entendemos isso, descobrimos que a fé não é a ausência de choro. É a decisão de continuar confiando mesmo com lágrimas nos olhos.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
