Recomeços

Hoje é o meu aniversário. E, curiosamente, toda vez que essa data chega, eu sinto uma necessidade estranha de reorganizar a vida. Como se um novo ciclo me obrigasse a olhar para algumas áreas e perguntar: “Será que ainda faz sentido continuar assim?” Talvez seja por isso que aniversários nunca sejam apenas sobre envelhecer. Eles também carregam um convite para recomeçar. Pelo menos para mim.

Nos últimos dias, tenho pensado muito nessa palavra: recomeço. A Bíblia é marcada por eles. Abraão precisou deixar a terra que conhecia. Moisés recomeçou quando imaginava que sua melhor chance já tinha ficado para trás. Rute precisou reconstruir a vida depois da perda. Pedro recomeçou depois do fracasso. Paulo, depois de descobrir que estava caminhando na direção errada. Vejam só: Deus parece não ter medo dos recomeços. Nós temos. Passei um tempo tentando entender por quê.

Acho que descobri que o nosso problema não é exatamente mudar. Mudanças podem até ser empolgantes. Eu, particularmente, amo mudanças. Uma casa nova, um trabalho novo, uma cidade nova. Gostamos da novidade quando ela chega trazendo alguma sensação de segurança. O difícil é recomeçar. Porque recomeçar quase sempre exige abrir mão de algo antes de saber exatamente o que vem depois. A gente gosta de pular de galho. Mas, se puder, prefere que o próximo já esteja firme antes de soltar o primeiro.

Essa é a nossa maior resistência. Não é a mudança, é o vazio entre um galho e outro. É aquele pequeno instante em que ainda não existe certeza e nem garantias. Só confiança. Foi pensando nisso que percebi uma diferença importante: mudança e recomeço não são a mesma coisa. Mudança altera as circunstâncias. Recomeço muda a direção. É possível mudar de endereço sem recomeçar. Trocar de emprego sem recomeçar. Até mudar de cidade sem recomeçar. Porque o verdadeiro recomeço acontece primeiro por dentro. Talvez seja por isso que este aniversário tenha um gosto tão diferente. 

Meu maior presente do último ano foi me tornar mãe. E, olhando para trás, percebo que a maternidade não mudou apenas a minha rotina, os meus horários ou as minhas prioridades. Ela mudou a minha direção. A maternidade não foi a maior mudança dos meus 34 anos. Foi o meu maior recomeço. Meu filho não apenas entrou na minha história. Ele mudou a direção dela. Acho que é por isso que existe tanto sentimento de recomeço dentro de mim agora. Não porque a maternidade apagou quem eu era, mas porque ela inaugurou alguém que eu ainda estou aprendendo a conhecer. E é exatamente esse o lugar onde eu me encontro hoje. Não porque todas as respostas chegaram. Muito pelo contrário. Existem áreas da minha vida em que já sei que um novo capítulo precisa começar.

O que ainda estou aprendendo é a ter coragem para soltar o galho. Não a coragem da decisão. Mas a coragem da insegurança que vem depois dela. E acho que a chegada de um filho amplia esse sentimento. Porque, quando uma vida passa a depender da sua, cada passo parece carregar um peso maior. A vontade de controlar tudo aumenta. O medo de errar também. E, pela primeira vez, eu não sinto que estou apenas virando uma página de mais um ano. Tenho a sensação de que estou começando um livro diferente. E talvez esse seja o melhor jeito de enxergar um aniversário. Não como a celebração de um ciclo que terminou, mas como a coragem de começar outro.

Obrigada, Deus, por mais um ano. Obrigada por todas as mudanças e pelos recomeços que me trouxeram até aqui. Mesmo sem saber tudo o que me espera nas próximas páginas, descanso na certeza de que o Senhor escreve cada capítulo comigo. Obrigada pelo privilégio de celebrar 35 anos. Começo este novo ciclo com a expectativa de viver, mais uma vez, no centro da Tua vontade.

Love love love, Lu. 

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