Eu sempre quis dar orgulho aos meus pais. Não por medo de castigo, mas por amor. Eu queria que eles olhassem para mim e ficassem felizes com quem eu estava me tornando. Decepcioná-los sempre me doeu mais do que qualquer bronca.
Demorei para entender que era isso que a Bíblia chama de temor a Deus. Antes de entregar minha vida a Jesus e mergulhar de verdade no Evangelho, eu não vivia esse temor por inteiro. Sabia que Deus existia, mas não me apegava ao fato de que Ele estava vendo tudo: o que eu fazia diante dos outros e o que eu fazia quando ninguém estava olhando. Hoje eu sei. E não é um olhar que me assusta, é o olhar do Pai. Temor é amor. É o mesmo desejo de antes, só que agora com outro endereço. Eu quero dar orgulho a Ele.
E aí a gente esbarra no que talvez seja o pecado mais humano da Bíblia inteira: a obediência parcial. Saul recebeu uma ordem clara de Deus e obedeceu quase toda. Quase. Poupou o rei inimigo e guardou o melhor do gado (1 Samuel 15). Depois ainda chegou satisfeito, dizendo que tinha cumprido a palavra do Senhor. Acã guardou escondido só um manto bonito e um pouco de prata. Ananias e Safira entregaram a oferta, mas seguraram uma parte e fingiram que era tudo. A desobediência quase nunca é um “não” frontal. É um “sim, menos nisso aqui”. E esse “isso aqui” é sempre justamente o que nos beneficia. Como é perigoso. E como é tentador, o tempo inteiro.
Por isso a história de José me pega tanto. A mulher de Potifar insistia com ele dia após dia (Gênesis 39:10). Não foi uma prova só, foi o cansaço de dizer “não” todo santo dia. E um dia ela o encontrou sozinho, sem ninguém da casa por perto. Ninguém veria. Ninguém saberia. E José não pensou em ser pego. Pensou: “Como, pois, faria eu este tamanho mal e pecaria contra Deus?” (Gênesis 39:9). Ele não estava preocupado com a própria reputação. Estava preocupado com uma relação. Quando ela o agarrou pela roupa, ele largou a capa na mão dela e fugiu.
Saul guardou o melhor do gado. José largou a capa. Um fez concessão para não perder nada. O outro preferiu perder a capa, o cargo e a liberdade a perder a inteireza. Porque integridade vem disso: de inteiro. Não ter um cantinho reservado, uma parte do gado guardada para si. E custou caro. José foi parar na prisão por fazer o certo. A integridade nem sempre compensa no curto prazo. Às vezes ela só custa. Talvez por isso seja tão rara e tão admirável hoje.
Preciso ser honesta: eu não escrevo isso do alto de um currículo limpo. Já fui corrompida, já pequei, já errei. Já guardei o meu gado e chamei de sacrifício. A integridade não é um troféu que eu tenho. É aquilo que eu busco para a minha vida, todos os dias, como uma filha que quer ver o Pai sorrir.
O exercício é perguntar a mim mesma qual é o meu “melhor do gado”, aquela concessão que eu venho guardando porque me convém. E tentar largá-la, nem que seja como José, deixando a capa para trás e saindo correndo.
Love love love, Lu.
