Já escrevi outras vezes sobre como, graças a Deus, é impossível olhar a vida sem o filtro do Espírito Santo. A gente assiste um filme e, de repente, Ele abre uma janela dentro da gente. É assim com livros, conversas, tragédias, alegrias. Tudo vira releitura. Tudo vira aviso. A vontade que dá é de reassistir muita coisa.
E, claro, não foi diferente quando assisti Frankenstein, com Jacob Elordi, ator que adoro. O filme em si não entrou para a lista dos meus favoritos, longe disso. Mas os clássicos têm esse poder incômodo de nos mostrar outras coisas. Mesmo quando a história não nos conquista, ela nos confronta. E Frankenstein, como todo clássico nascido sem Jesus, carrega símbolos antigos que continuam batendo na porta do coração humano.
Porque, se você olhar com olhos espirituais, a história de Victor Frankenstein é quase uma parábola moderna sobre a tentação mais antiga do mundo: aquela que começou no Éden, no sussurro de uma serpente — “você pode ser como Deus”.
Victor não queria apenas entender a vida. Ele queria fabricá-la. Não queria colaborar com Deus. Queria substituí-lo. E é curioso como, ainda hoje, fazemos o mesmo em versões menores: quando tentamos controlar o que foge do controle, quando insistimos em ser autores de histórias que não nos pertencem, quando colocamos nossa vaidade e poder no centro e chamamos isso de propósito.
A queda de Victor não começou no laboratório. Começou no orgulho. E orgulho, na Bíblia, sempre vem antes da queda. A criatura nasce, abre os olhos e é abandonada. E nesse abandono há uma dor que atravessa os séculos. Porque o que é o ser humano sem o Criador, senão um órfão procurando um nome? A criatura aprende a falar, observa famílias, tenta fazer o bem, anseia por companhia. Ele carrega uma sensibilidade que ninguém percebe porque todos só enxergam o exterior que assusta.
Quantas pessoas já se sentiram assim também? Rejeitado, não visto, chamado de “monstro” por machucados que você não causou. Confundido com o mal quando, no fundo, só queria ser amado. A dor o deforma. A repetição das pancadas o endurece. O ressentimento cava dentro dele um lugar onde antes estava a inocência.
Dá para pensar em Caim, dá para pensar em tantos de nós e penso em como a falta de amor estraga até quem nasceu para ser bom. “A criatura é má porque é miserável”, ele diz. Que frase profundamente humana e profundamente bíblica. Victor, por outro lado, se recusa a ser pai do que criou e a rejeição sempre gera caos. Enquanto Deus acolhe, sustenta, corrige e ama, Victor foge. E toda vez que fugimos da responsabilidade, algo se parte dentro de nós e no mundo. Criador e criatura passam a se destruir mutuamente, presos num ciclo que só o perdão seria capaz de romper.
Mas ninguém perdoa, nem cede, nem ama. E sem amor, tudo caminha mesmo para a morte. No final, a história é só silêncio, neve e solidão. Um criador morto pela própria obra. Uma criatura que escolhe desaparecer porque não aguenta o peso de existir sem bondade. Essa história é menos sobre ciência e mais sobre vida. Menos sobre monstros e mais sobre espelhos do mundo. Porque Frankenstein acontece no filme, mas acontece na vida também.
Acontece quando tentamos ser deuses e colhemos ruínas, quando abandonamos aquilo que deveríamos cuidar. Ou quando a dor não encontra cura e vira raiva, quando evitamos o perdão que nos libertaria.
No fim, continuo acreditando: a única força capaz de transformar um “monstro” é o amor. A única maneira de redimir uma criação é assumir responsabilidade por ela. E a única resposta para o orgulho humano é a humildade diante de Deus. Se Victor tivesse amado sua criatura, a história teria sido outra. Se nós amarmos como Cristo nos amou, a nossa também será.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
