A presença é maior que a resposta

Tenho lido Jó novamente devagar.  É difícil de digerir. É um daqueles livros que não deixam a gente confortável, que não oferecem respostas rápidas nem frases bonitas. Pelo contrário: ele aperta o peito tanto para quem lê pela primeira vez ou pela segunda, terceira… Em vários momentos me peguei com vontade de dizer em voz alta: “Deus, já chega. Resolve isso logo. Ele não merece”. E, curiosamente, hoje eu acho que essa reação talvez seja o sinal de que estamos lendo do jeito certo. Jó não foi escrito para acalmar. Foi escrito para incomodar.

Esses dias uma seguidora me mandou uma mensagem dizendo que havia algo na história que a perturbava: a sensação de que existia quase uma “aposta”, uma permissão para que um homem justo fosse testado mesmo sem ter feito nada de errado. Quando li, eu só pensei: eu te entendo. Porque eu já senti exatamente isso.

Mas o que acontece ali não é abandono, nem descuido. É uma permissão soberana, com limites muito claros. Deus continua no controle da história o tempo todo. Nada ultrapassa a medida que Ele estabelece. Ele nunca dá um fardo maior do que podemos suportar, ainda que, por dentro, às vezes pareça pesado demais. 

Se a gente lê Jó de forma rasa, a impressão é de injustiça divina. Parece crueldade. Parece silêncio demais. Mas, quando a gente para e se aprofunda, percebe que o incômodo é pedagógico. O livro inteiro é construído não para testar o caráter de Jó, mas para desmontar uma lógica muito humana que a gente ainda carrega: a de que sofrimento é castigo e prosperidade é prêmio.  Os amigos de Jó repetem essa conta o tempo todo, como quem defende uma fórmula matemática. Só que nós, leitores, sabemos desde o primeiro capítulo que ela está errada, porque Jó é íntegro. E é justamente essa contradição que nos angustia. A conta não fecha, e não era para fechar mesmo. Se essa lógica fosse verdadeira, ninguém bom choraria. E a vida já nos ensinou que não é assim.

O que mais mexe comigo em Jó é que ele não é o herói forte que a gente idealiza. Ele não reage com frases espirituais prontas. Ele reclama, questiona, se cansa, perde o fôlego, chega a desejar a própria morte. Jó é profundamente humano. Mas, em nenhum momento, ele vira as costas para Deus. Ele sofre na presença de Deus, com Ele. E isso, para mim, redefine completamente o que é fé. Talvez fé não seja suportar tudo calado e sim continuar conversando com Deus mesmo quando a conversa sai em forma de choro.

E Deus não repreende Jó por ter falado demais. Repreende os amigos, que falaram bonito demais.Deus prefere a honestidade de um coração quebrado à religiosidade fria de quem explica a dor alheia com versículos. O desabafo sincero agrada mais a Deus do que a teologia perfeita aplicada sem coração e empatia.

Com o tempo, comecei a perceber que Jó não é um livro sobre sofrimento em si, mas sobre relacionamento. Sobre confiar quando não há explicação e permanecer quando não há resposta. Porque o problema nunca foi sofrer; o problema é sofrer longe de Deus. A dor não é automaticamente lição nem castigo, mas, quando atravessada com Ele, pode se tornar encontro. Não é à toa que, no final, Jó não recebe uma explicação detalhada do que aconteceu nos bastidores do céu. Ele recebe algo maior: a presença de Deus. “Antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem.” Ele não ganha respostas, ele ganha intimidade.

Ontem, no culto, ouvi novamente o trecho de 2 Coríntios 4:16-18 que diz que não desanimamos porque o que se vê é temporário, mas o que não se vê é eterno. Aquilo completou em cheio a lógica do livro. Talvez a nossa maior angústia seja querer justiça imediata, enquanto Deus está trabalhando numa perspectiva eterna. Na herança eterna. A gente pede alívio rápido; Ele está formando profundidade. A gente quer explicação; Ele oferece presença.

Eu ainda me incomodo lendo Jó. E, estranhamente, hoje agradeço por isso. Esse incômodo me lembra que meu coração ainda reconhece injustiças, que ainda me compadeço da dor do outro, que ainda espero um mundo mais justo. Talvez essa seja a fé possível: não entender tudo, não romantizar o sofrimento, mas continuar escolhendo ficar. Continuar dizendo “eu não compreendo, mas confio”.

Porque, no fim, somente em vida temos o privilégio raro de oferecer a Deus uma adoração em meio à dor. No céu não haverá lágrimas, mas também não haverá fé. Fé é coisa de quem continua caminhando mesmo sem enxergar o caminho inteiro. E, de algum jeito misterioso, é nesse escuro que a gente aprende a segurar mais forte na mão d’Ele.

A justiça divina não falha. Essa verdade que devemos nos apegar. Quem é fiel não vive por recompensas imediatas, mas por uma esperança eterna. O Reino dos Céus é a verdadeira herança e é essa promessa que sustenta nossos passos quando o presente indigna-nos ou ainda dói.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 

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