Voltar antes de cair de novo

Recentemente ouvi uma pregação que falou muito comigo. Falava sobre voltar ao primeiro amor, sobre como o nosso relacionamento com Jesus não se sustenta sozinho. Como qualquer relação viva, ele precisa ser alimentado, cuidado, protegido. A gente até sabe disso, mas, sem perceber, o dia a dia vai engolindo tudo: trabalho, responsabilidades, distrações, cansaço. Quando vemos, aquele fogo que antes era tão vivo vai se apagando devagar, quase sem barulho.

Mas me dei conta de uma coincidência também: trabalho justamente ajudando pessoas que estão tentando recomeçar. Com frequência, converso com gente que decidiu largar a nicotina. Pessoas que já sofreram com o vício, que já prometeram parar mil vezes, que conhecem o gosto amargo da recaída e, ainda assim, escolhem tentar de novo.

Acompanhando essas histórias, aprendi uma coisa que a pregação só confirmou: recaídas quase nunca acontecem de repente. Ninguém acorda decidido a se perder. A queda começa bem antes, num detalhe. Começa no esquecimento.

A pessoa esquece de onde saiu, das noites mal dormidas, a falta de ar, a culpa escondida depois de mais um cigarro, a sensação de estar presa a algo tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão forte. Esquece o quanto doeu. E, quando a memória falha, o passado começa a parecer menos perigoso do que realmente era. O que era prisão ganha cara de “só um pouquinho”, “só hoje”, “agora eu controlo”. E isso também se aplica a outros vícios da vida… jogos, pornografia, mentira, álcool, um relacionamento tóxico. 

Foi aí que o versículo citado na mensagem voltou à minha mente, de Apocalipse 2:5: “Lembre-se de onde caiu. Arrependa-se e faça as obras que praticava no princípio.” Três verbos simples, quase um passo a passo de retorno. E, pensando bem, aquilo não falava só de esfriamento espiritual. Era também um alerta urgente para qualquer tipo de queda, especialmente para quem já foi liberto de algum vício e começa, aos poucos, a flertar de novo com o que Deus já tinha arrancado da sua vida.

“Lembre-se” é quase um gesto de proteção. Não para se culpar, mas para não romantizar o que te aprisionava. É voltar no mapa e reconhecer: eu sei exatamente onde esse caminho termina. Depois vem o arrependimento, que não tem nada de discurso bonito ou emoção passageira. É decisão prática, mudança de rota. É perceber cedo que certo pensamento não é inocente, que determinado hábito está puxando para trás, que alguns ambientes enfraquecem mais do que ajudam. É virar antes do precipício chegar.

E, por último, Jesus não pede nada extraordinário. Ele só diz para fazer de novo o que se fazia no começo. Voltar para o simples. Para o básico que sustentava a fé e, pensando nas pessoas que acompanho no trabalho, também a sobriedade. Pedir ajuda. Cortar gatilhos. Ajustar a rotina. Se afastar do que enfraquece. Se aproximar de quem fortalece. Pequenos gestos que, vistos de fora, parecem quase nada, mas que por dentro sustentam tudo.

Percebo isso diariamente. A vitória de muita gente não cinematográfica. Às vezes é só atravessar um dia inteiro sem fumar. Depois mais um. Depois outro. Pequenos “nãos” acumulados que, somados, viram liberdade. A fé funciona do mesmo jeito. Talvez voltar não seja um grande espetáculo espiritual, mas uma soma de retornos discretos. Uma oração sincera, uma conversa honesta, um passo pra trás antes da queda. 

Para quem já foi preso, certas coisas nunca são “só um pouquinho”. São correntes esperando uma brecha. Por isso aquele versículo não repercutiu como bronca para mim. Soou como cuidado, como alguém segurando nossa mão antes do tropeço e dizendo com calma: você não precisa passar por tudo de novo. Lembra de onde eu te tirei. Volta. Ainda dá tempo.

E, às vezes, voltar é o maior milagre de todos.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 

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