O prazer de não saber

Eu acredito que todo mundo, em algum momento da vida, passa por uma fase em que quer viver tudo ao mesmo tempo. Saber de tudo, estar em todos os lugares, participar de todas as conversas, como se existir fosse sinônimo de presença constante. Existe uma urgência quase ansiosa em não perder nada, como se a vida estivesse sempre acontecendo em outro lugar e a gente precisasse correr atrás para não ficar para trás.

Durante muito tempo eu vivi assim, com a sensação de que precisava acompanhar cada novidade, cada evento, cada assunto do dia. Se alguém comentava algo que “todo mundo já sabia” e eu não fazia ideia do que era, aquilo me incomodava mais do que deveria. Se eu não ia a uma festa, se não dava tempo de responder mensagens, se não conseguia me atualizar sobre tudo, vinha um sentimento estranho de exclusão, como se eu estivesse falhando em viver direito. Hoje eu sei que era puro medo de ficar de fora, aquele FOMO que a gente tenta disfarçar de interesse ou produtividade.

Só que, com o tempo, depois de muitas horas vivendo no excesso — excesso de responsabilidade, de compromissos, de agenda, de informações — algo começa a mudar dentro da gente. Não é um estalo, nem uma decisão consciente. É um cansaço, uma percepção de que estamos sempre cansados demais para aproveitar o que a gente mesmo tinha escolhido fazer. Desejamos caber em tudo, mas começamos a perceber que ninguém foi feito para isso. A gente não foi criado para essa quantidade de interações, de estímulos, de demandas emocionais. Existe um limite muito humano em nós que o mundo moderno insiste em ignorar.

E junto com esse limite vem um despertar que, curiosamente, não dói: reconhecer que não somos tão importantes assim. Durante anos eu achei que isso seria triste, quase uma perda de relevância. Mas, na prática, é muito libertador. Entender que o mundo continua girando sem a nossa participação em tudo traz uma humildade boa, dessas que trazem descanso. Não precisamos estar em todos os lugares, nem saber de todas as histórias, nem opinar sobre todos os assuntos. Podemos simplesmente não saber. Podemos não ir. Podemos nos abster. E nada desmorona por causa disso.

Hoje existe uma paz muito diferente em ficar de fora. Quando não acompanho alguma novidade ou quando percebo que não estou em determinado círculo ou evento, em vez de ansiedade eu sinto alívio. É como se eu tivesse sido poupada de algo desnecessário. Descobri um prazer em não estar em tudo, em escolher o que cabe no meu dia, no meu tempo, na minha energia. Menos cobrança com a minha própria participação, menos necessidade de provar presença, menos importância para o meu nome em cada lista.

Outro dia ouvi a escritora Fernanda Witwinsky comentando em um podcast sobre isso, sobre como Deus foi trabalhando o coração dela para que aquilo que antes parecia punitivo — ficar fora das redes, desaparecer por algumas semanas — se tornasse descanso. Ela falava com alegria sobre passar três semanas por mês desconectada, celebrando o fato de não saber o que está acontecendo. E eu me identifiquei tanto, porque é exatamente essa sensação: o que antes parecia exclusão hoje parece cuidado.

Talvez amadurecer seja isso, diminuir a própria centralidade, parar de achar que tudo depende de nós e da nossa presença. A Bíblia fala algo que sempre volta à minha mente nesses dias mais quietos: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Salmos 46:10). Existe um convite claro aí: pare. Desacelere. Não tente controlar tudo. Não tente acompanhar tudo. Apenas aquiete. Como se Deus lembrasse que o mundo não precisa da nossa vigilância constante para continuar existindo.

Tenho aprendido que há uma vida muito bonita acontecendo nas margens, longe do excesso de informação. Uma vida feita de conversas ao telefone, de tempo em casa, de silêncios que não precisam ser preenchidos, de presença real com quem está perto. Não saber de tudo não me diminui, me protege. Não estar em tudo não me apaga, me preserva. E, ironicamente, é justamente quando eu paro de tentar viver tudo que começo, de fato, a viver melhor.

Hoje, se alguém me pergunta sobre algo que eu não acompanhei, eu só sorrio. Existe uma paz nova em poder dizer: eu não sei.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 

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