Onde eu Te encontro?

Recentemente, em uma célula, entre um testemunho e outro, fizemos uma pergunta simples: onde você encontra Deus na sua rotina? As respostas não vieram de lugares silenciosos, de poltronas confortáveis ou de escritórios organizados. Vieram da vida comum.

Uma disse que encontra Deus no carro, enquanto dirige ouvindo louvores. Outra contou que suas conversas mais sinceras com Ele acontecem enquanto lava a louça. Houve quem falasse do banho,  na praia, olhando o mar e lembrando-se da grandeza do Criador e outra nas madrugadas, embalando seu filho recém nascido. Enquanto conversávamos, todas, respondiam à mesma pergunta:  onde eu Te encontro?

Porque, no fundo, todas nós sabemos o que é deixar Deus para depois. Em algum momento da vida chegamos à conclusão de que precisamos organizar melhor nossa vida espiritual. E isso é verdade. Mas talvez não seja toda a verdade. A maternidade me confrontou com isso de uma forma que eu não esperava. Durante muito tempo, minha rotina espiritual foi muito organizada. Eu tinha horário para ler a Bíblia, para escrever, para estudar, para orar. Uma agenda e estrutura. Isso faz parte da minha personalidade. Então meu filho nasceu.

E, por mais de um mês, tudo aquilo simplesmente desapareceu. Os horários deixaram de existir e o planejamento foi substituído pelas demandas urgentes de um recém-nascido. E junto veio um sentimento que eu não esperava: culpa. Eu não sentia falta apenas da rotina que me dava prazer de estar ali, eu me sentia em dívida com Deus. Foi aí que percebi o quanto o legalismo está enraizado dentro de nós. Sem perceber, começamos a acreditar que Deus gosta mais de nós quando performamos bem. Que Ele está mais perto quando produzimos mais ou que fica mais satisfeito quando cumprimos toda a nossa agenda espiritual. Mas isso não é evangelho… é mérito.

Um dia, olhando para meu filho na madrugada, conversando com Deus ele me confrontou com uma verdade muito simples. Ele não precisa fazer nada para que eu o ame. Não precisa sorrir para mim, nem agradecer. Não precisa demonstrar afeto o tempo inteiro. Eu continuo acordando de madrugada, cuidando, protegendo e amando. O nosso relacionamento não está baseado no desempenho dele em me amar. Então por que tantas vezes eu ajo como se o amor de Deus por mim estivesse baseado no meu desempenho?

Ali eu realizei que o meu pós-parto também pode ser um devocional. Porque antes eu encontrava Deus na mesa, no caderno de oração, nas anotações de estudo. Hoje eu também O encontro no silêncio da madrugada. Deus continuava ali. Não menos presente, nem menos amoroso.  Mas existe um cuidado aí… Essa descoberta não nos leva ao outro extremo. Não significa que a disciplina deixou de ser importante. Não significa que a Palavra se tornou opcional. Jesus continuava se retirando para orar e Bíblia continua sendo alimento. A intimidade precisa continuar sendo cultivada.

A diferença é que agora eu entendo algo que antes parecia óbvio, mas que eu ainda não havia aprendido de verdade: não buscamos a Deus para sermos amados. Buscamos porque já somos amados. Talvez seja por isso que a história de Marta e Maria continue tão atual. Jesus não condenou o serviço de Marta. Ele corrigiu a ansiedade e a cobrança. Da mesma forma, Efésios nos lembra que somos salvos pela graça, não pelas obras. E em João, Jesus não diz: “Produzam para mim”. Ele diz: “Permaneçam em mim”. Permanecer.

Talvez seja essa a palavra que tantas pessoas precisam ouvir. Deus continua dizendo a mesma coisa: “Filha(o), eu não estou pedindo performance. Estou pedindo presença.” Hoje continuo acreditando que Deus não merece apenas o tempo que sobra. Mas Ele também não está esperando uma performance perfeita. Deus não me amava mais quando eu tinha duas horas livres para um devocional. E não me amou menos quando a única oração que consegui fazer foi chorando, enquanto embalava meu filho no escuro.

A graça não diminui quando a rotina muda. O convite nunca foi oferecer perfeição, sempre foi oferecer presença. Talvez a pergunta mais importante não seja onde encontramos Deus. Mas perceber que, antes mesmo disso, Ele já estava lá nos esperando.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é pra ser.

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