Inquilinos: Não somos. Estamos

Não somos. Estamos. Com certeza você já esbarrou nessa frase por aí, mas a pergunta que te faço é, você já foi, verdadeiramente impactado por ela? 

Talvez uma das maiores ilusões da vida seja acreditar que somos aquilo que ocupamos. Somos o cargo, o título, o reconhecimento. Somos a posição que conquistamos. Somos a autoridade que recebemos ou influência que acumulamos. Mas a verdade é bem menos confortável: nós não somos. Nós estamos.

Estamos líderes. Estamos gestores. Estamos empresários. Estamos pais, mães, filhos, professores, pastores ou governantes. Tudo isso pode ser verdade hoje e deixar de ser amanhã. O único lugar onde nossa identidade não muda é naquilo que Deus diz sobre nós: somos seus filhos amados. Todo o resto é empréstimo.

Enquanto lia Samuel mais uma vez, me chamou atenção como a história de Saul gira em torno dessa confusão entre identidade e posição. Quando foi escolhido por Deus, Saul parecia entender seu lugar. Era um homem simples, que chegou a se esconder entre as bagagens quando foi proclamado rei. Havia nele um senso de insuficiência que o mantinha dependente. Mas, aos poucos, isso mudou. O trono, que deveria ser uma responsabilidade, tornou-se uma extensão do seu ego. A coroa deixou de ser uma missão e passou a ser uma posse. Saul começou a agir como proprietário daquilo que Deus apenas havia confiado aos seus cuidados. Que história atual, não é?! Porque todos nós corremos o mesmo risco.

Recebemos uma oportunidade e passamos a acreditar que somos indispensáveis. Conquistamos um espaço e começamos a protegê-lo como se fosse nosso por direito eterno. Somos elogiados algumas vezes e, sem perceber, deixamos que a admiração dos outros substitua a aprovação de Deus. O problema do orgulho é que ele raramente chega fazendo alarde. Ele é silencioso e sorrateiro. Vai nos convencendo de que aquilo que administramos nos pertence. Que aquilo que recebemos foi conquistado exclusivamente pelo nosso mérito. Que o lugar que ocupamos existe por nossa causa. Foi exatamente essa mentalidade que afastou Saul da humildade.

Enquanto Davi entendia que o reino pertencia a Deus, Saul lutava para manter algo que nunca foi dele. E talvez seja essa a principal lição da sua história: somos inquilinos, não proprietários. Administramos talentos que recebemos. Cuidamos de recursos que nos foram confiados. Ocupamos posições que um dia serão ocupadas por outras pessoas. Nada disso é permanente. Nada disso nos pertence.  Quando entendemos isso, a humildade deixa de ser um esforço e passa a ser uma consequência.

Afinal, como ter orgulho daquilo que recebemos? Como agir com arrogância diante de algo que nos foi confiado por um tempo? Como acreditar que somos maiores do que a missão que recebemos? A consciência de que somos apenas administradores nos ajuda a vestir a sandália da humildade. Porque cargos passam. Reconhecimento e poder, passam. Influência passa.  Mas permanece a verdade mais importante de todas: antes de qualquer posição, somos filhos.

E quando lembramos disso, o ego perde força. A comparação perde sentido. A necessidade de provar algo para os outros diminui. Não somos. Estamos. E quanto mais cedo entendermos essa diferença, mais livres seremos para servir, liderar e viver com humildade em todas as áreas de nossas vidas. 

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu.

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