O mundo nos ensina a sermos Jacós. Deus nos chama para sermos Israel.

Existe um Jacó dentro de todos nós e ele aparece quando acreditamos que precisamos controlar tudo. Quando pensamos que, se não dermos um jeito, ninguém dará. Quando confundimos inteligência com dependência de Deus e estratégia com confiança. O mundo nos ensina exatamente isso.

Desde cedo aprendemos que vence quem chega primeiro, quem negocia melhor, quem sabe convencer, quem se antecipa, quem nunca demonstra fraqueza. Somos incentivados a construir a própria história com as próprias mãos, como se o peso de todas as coisas repousasse exclusivamente sobre nossos ombros. Jacó vivia essa lógica. Ainda na barriga da mãe, lutava com o irmão. Ao nascer, segurou o calcanhar de Esaú, como se pudesse mudar a ordem da própria história. Mais tarde, comprou o direito de primogenitura por um prato de comida. Depois, enganou o próprio pai para receber a bênção destinada ao irmão.

Era um homem extremamente capaz, inteligente e trabalhador. Mas profundamente acostumado a acreditar que precisava conquistar tudo sozinho. Curiosamente, Deus nunca desistiu dele. É isso é uma das coisas que mais me emocionam na Bíblia. Deus não espera Jacó se tornar perfeito para chamá-lo. Pelo contrário. Ele o acompanha justamente enquanto seu caráter ainda está sendo moldado. Então a vida faz aquilo que nossas escolhas muitas vezes não conseguem fazer.

Jacó foge. Trabalha para Labão. E o homem que passou a vida enganando experimenta o gosto de ser enganado. Quem manipulava circunstâncias agora descobre que não controla todas elas. Os anos passam. Um processo de transformação acontece ali, de um jeito particular que são Deus sabe fazer. 

Ele raramente muda apenas as circunstâncias. Primeiro, muda quem nós somos dentro delas. Há dores que não existem para nos destruir. Existem para desmontar a falsa ideia de autossuficiência que carregamos por tantos anos. Talvez seja por isso que a verdadeira transformação de Jacó não acontece quando ele recebe riquezas, forma uma família ou prospera. Ela acontece numa noite solitária, às margens do riacho de Jaboque. Naquela madrugada, ele luta com Deus. Ou, melhor, Deus luta com ele.

E, quando percebe que não vencerá pela força, Jacó faz algo que nunca havia feito durante toda a sua vida: ele para de tentar controlar e simplesmente se agarra. “Não te deixarei ir, se não me abençoares.” É curioso. Pela primeira vez, Jacó não tenta roubar uma bênção. Ele apenas reconhece que depende dela. Aquele homem que passou décadas tentando conquistar tudo finalmente entende que existem coisas que só Deus pode entregar.

E é justamente ali que Deus lhe faz uma pergunta aparentemente estranha:

— Qual é o teu nome?

“Jacó”, ele responde.

Na cultura bíblica, nome não era apenas identificação. Era identidade.

Ao dizer “eu sou Jacó”, ele também estava dizendo: “eu sou aquele que tentou controlar, manipular, resolver tudo pelas próprias mãos.”

Então Deus responde:

“Não te chamarás mais Jacó, mas Israel.”

Deus não mudou apenas um nome. Mudou uma história, uma identidade e a maneira como aquele homem caminharia dali em diante. Israel saiu daquele encontro mancando. Isso é simbólico, pois ele venceu a luta, mas nunca mais andou como antes.  Porque quem encontra Deus de verdade nunca volta exatamente igual.

Também houve momentos na minha vida em que tentei controlar tudo. Achei que bastava trabalhar mais, pensar melhor, planejar melhor ou encontrar a estratégia certa para resolver qualquer situação. Em alguns momentos funcionou. Em outros, descobri da forma mais difícil que existem batalhas que inteligência nenhuma vence. Dei com a cara na parede. E foi justamente nesses lugares que Deus começou a trabalhar em mim. Nem sempre mudando as circunstâncias na velocidade que eu gostaria, mas mudando o meu coração enquanto eu esperava.

Hoje entendo que o maior milagre nunca foi aquilo que Deus fez ao meu redor. Foi aquilo que Ele fez e segue fazendo dentro de mim. E talvez seja esse o maior desejo de quem já experimentou essa graça: ver outras pessoas descobrindo que elas também não precisam passar a vida inteira sendo Jacó.

Jesus continua fazendo hoje o que Deus fez naquela madrugada. Ele continua restaurando identidades. Continua curando e nos ensinando a força da rendição. O mundo continuará dizendo que precisamos ser mais fortes, mais rápidos, mais espertos. Cristo continua dizendo: “Permaneçam em mim.”  Talvez, um dos maiores testemunhos que alguém pode carregar não seja o de quem nunca caiu ou pecou. Talvez seja simplesmente este: “Um dia eu fui Jacó, mas pela graça de Deus, continuo sendo transformado em Israel.”

Essa é a história de um Deus extraordinário que transforma pessoas comuns. E ela pode ser sua. 

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 

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