É uma pergunta curta. Daquelas que parecem simples, mas que, quanto mais honestamente tentamos responder, mais revelam a profundidade que carregam. Difícil, né? Curiosamente, quando alguém nos faz essa pergunta, raramente começamos falando de quem somos. Quase sempre respondemos dizendo o que fazemos. “Sou médica.” “Sou empresária.” “Sou mãe.” “Sou advogada.”
É automático. Como se nossa identidade fosse um currículo resumido. Como se aquilo que fazemos tivesse ocupado o lugar de quem somos. Talvez seja porque essa pergunta nunca deixou de nos acompanhar. Ela apenas muda de roupa ao longo da vida. Quando crianças, nos perguntam: “O que você quer ser quando crescer?”. E aprendemos, desde cedo, a responder com profissões. Veterinária. Professora. Engenheira. Empreendedora.
Sem perceber, crescemos acreditando que “ser” e “fazer” eram praticamente a mesma coisa. Não são.
A profissão diz muito sobre nossos talentos, sobre aquilo que nos move, sobre a forma como escolhemos servir ao mundo. Mas ela nunca foi capaz de definir nossa identidade. Porque hoje você é médica. Amanhã pode não ser. Hoje você lidera uma empresa. Amanhã talvez venda o negócio. Hoje você é atleta. Uma lesão pode mudar completamente esse capítulo.
Hoje seus filhos moram com você. Amanhã constroem suas próprias famílias.
Os papéis mudam. As circunstâncias mudam. As estações mudam. E se tudo aquilo que sustentava sua resposta desaparecer, o que sobra? É aí que nasce grande parte das crises de identidade. Não quando a vida muda, mas quando descobrimos que estávamos apoiados em algo que sempre foi transitório. É por isso que tantas pessoas entram em colapso depois de uma demissão, de uma aposentadoria, de um divórcio, da saída dos filhos de casa ou do fim de um negócio. Não porque perderam apenas um papel, mas porque, sem perceber, haviam transformado esse papel em identidade.
Se eu sou apenas o cargo que ocupo, quem sou quando o cargo acaba? Se eu sou apenas a aprovação que recebo, quem sou quando ela falta? Se eu sou apenas o desempenho que entrego, quem sou quando falho? Vivemos em uma cultura que nos convida o tempo todo a construir identidade sobre aquilo que pode ser medido. Performance, patrimônio, aparência, produtividade, seguidores e resultados. Mas tudo isso oscila.
E tudo aquilo que depende das circunstâncias inevitavelmente nos torna instáveis. Por isso a pergunta “quem sou eu?” seja muito mais importante do que parece. Ela não é apenas uma reflexão filosófica. É uma questão de saúde emocional, de direção e autoestima. Como alguém que estuda marca pessoal, acho curioso perceber que passamos anos tentando comunicar ao mundo quem somos, enquanto, muitas vezes, nem nós sabemos responder essa pergunta sem recorrer aos nossos papéis.
Marca pessoal não nasce do cargo. Ela nasce da identidade e identidade não deveria depender daquilo que pode ser perdido. É justamente aqui que a Bíblia oferece uma resposta radicalmente diferente da lógica do mundo. Em Efésios 1:3-7, Paulo não começa dizendo o que fazemos para Deus. Ele começa dizendo quem somos nele…Escolhidos, adotados, redimidos, perdoados. Antes de qualquer desempenho, existe pertencimento, filiação e graça. Isso muda tudo.
Se minha identidade está em Cristo, meus papéis deixam de ser o alicerce da minha vida e passam a ser apenas expressões dela. Posso exercer muitos papéis ao longo da minha história, mas nenhum deles tem o poder de definir meu valor. Porque quem eu sou não muda quando as circunstâncias mudam. Não aos olhos do Pai. Hoje, a pergunta que você pode se fazer não é “quem você é?”, mas “sobre o que você construiu a resposta para essa pergunta?”.
Aquilo que sustenta sua identidade será exatamente aquilo que sustentará você quando a vida mudar. E ela vai mudar.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
Love love love, Lu.
