O peso do que ficou para trás

Toda vez que troquei de cidade, o que me ajudou foi o desapego. Não precisei aprender essa lição na marra, eu já a aplicava, e isso facilitou tudo. Não me apegar ao que era. Não comparar a rua nova com a antiga, o mercado novo com o de sempre, os rostos desconhecidos com os que eu já sabia de cor. A comparação é o que nos deixa infelizes, e enquanto ela acontece, a cidade nova nunca vira sua casa, fica só um lugar de passagem, um endereço emprestado. Desapegada, eu conseguia desfrutar da novidade em vez de resistir a ela. Cada mudança pedia essa mesma prática de novo, inteira, mas eu já sabia o caminho.

Até o armário me ensina isso, do jeito mais simples possível. Um dia percebi que peças que eu não vestia há anos continuavam ali, penduradas, ocupando espaço, guardando uma versão minha que já tinha ido embora. Quando finalmente desapeguei — literalmente, roupa por roupa — a energia da casa e a minha mudou. Não era só sobre espaço vazio no cabide. Era como se o ambiente respirasse diferente. O que não flui, pesa. O que se acumula, sufoca. E isso vale para tecido tanto quanto vale para memória.

Mas virar mãe tem sido a versão mais profunda dessa lição. Não existe manual que prepare alguém para reescrever a própria identidade da noite para o dia. “Eu” é uma palavra que está sendo reaprendida. A mulher que eu era antes não desapareceu, mas também não pode continuar mandando na casa nova que se forma dentro de mim. Toda vez que tentei encaixar a mãe que eu estou virando dentro da vida que eu tinha antes, sofri. O sofrimento não vem da maternidade, vem da resistência em deixar ir quem eu fui para dar lugar a quem eu estou me tornando.

A Bíblia está cheia de gente que aprendeu essa lição da forma mais dura. A mulher de Ló é uma delas. Deus tirou a família dela de Sodoma antes da destruição, com uma única instrução: não olhem para trás. Não era uma ordem aleatória, era um convite para confiar no que vinha à frente e soltar, de vez, o que ficava. Mas ela olhou. Virou-se para a cidade que estava sendo consumida, para a vida que ela conhecia, para tudo aquilo que, mesmo em ruínas, ainda parecia mais familiar do que o desconhecido diante dela. E virou estátua de sal. Parada e sem vida. Existe imagem mais precisa do que o apego faz com a gente? Ele nos congela no exato instante em que insistimos em olhar para o que passou.

E o povo de Israel?! Já livre do Egito, caminhando rumo à terra prometida, e ainda assim chorando pelas panelas de carne que comiam quando eram escravos. Deus tinha aberto o mar para eles. Tinha derrubado um império inteiro para libertá-los. E, no deserto, com o milagre ainda fresco, eles suspiravam de saudade da escravidão, porque pelo menos lá eles sabiam o que esperar. O apego não escolhe só coisas boas para se agarrar; às vezes se agarra até ao sofrimento conhecido, só porque é conhecido. Isso os manteve dando voltas por quarenta anos numa jornada que deveria ter durado poucos meses. O apego não é só dor, é atraso.

Acho que é isso que eu que ainda não tinha realizado de maneira tão clara sobre o desapego: ele não é um ato único, resolvido de uma vez. É uma prática. Cada mudança de cidade, cada fase da maternidade, cada gaveta que abro pedem a mesma decisão de novo: vou olhar para trás ou vou confiar no que se abre à minha frente? A mulher de Ló perdeu a vida por não conseguir responder essa pergunta. O povo de Israel perdeu tempo. 

Eu não quero perder o presente tentando segurar o que já foi embora.  Hoje escolho outra coisa. Escolho deixar fluir o que precisa fluir, soltar o que precisa ser solto, e olhar para frente, mesmo sem saber exatamente o que vem depois.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu.

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