Receituário: Gelo e rio Jordão

Passei meses com o punho machucado. Era uma dor real, de movimento repetitivo…de colo, de embalo, de madrugada. E, como toda dor que dura muito, ela foi crescendo também na minha cabeça: se demorou tanto, só pode ser algo complexo. Quando finalmente fui ao médico, eu já tinha o roteiro pronto. Ia ouvir falar em exame, em infiltração, em algum procedimento, sei lá. Alguma coisa à altura de tanto tempo doendo.

E o que o médico passou? Gelo e imobilização. Só isso.

Confesso que no início, não botei fé no gelo. Gelo é o que a gente coloca no joelho de criança que caiu no parquinho, não na dor que me acompanhou por meses. Mas fiz. Gelo, uma vez, outra vez, de novo no dia seguinte. Braço quieto, mesmo quando tudo em mim queria usá-lo. E funcionou. O gelo resolveu. Imobilizar resolveu.

Aí minha cabeça ligou com a história de Naamã, lá em 2 Reis 5. Naamã era comandante do exército da Síria, homem importante, respeitado, vitorioso e leproso. Quando soube que havia um profeta em Israel capaz de curá-lo, foi até lá com cavalos, carros, prata, ouro e roupas finas. Chegou à porta de Eliseu esperando um acontecimento. E Eliseu nem saiu para recebê-lo. Só mandou um mensageiro dizer: vá, mergulhe sete vezes no rio Jordão, e você ficará limpo.

Naamã ficou indignado. E o que ele diz foi quase a minha história “Eu pensava que ele sairia, invocaria o nome do Senhor, o seu Deus, passaria a mão sobre a ferida e me curaria.” Ele tinha imaginado a cura inteira, com cena e tudo. E ainda completou, ofendido: os rios de Damasco não são melhores do que todas as águas de Israel? Se é para mergulhar em rio, eu tinha rio melhor em casa.

Quem salvou Naamã do próprio orgulho não foi o profeta. Foram os servos. Chegaram perto e disseram: “Meu pai, se o profeta tivesse mandado o senhor fazer alguma coisa difícil, o senhor não faria? Quanto mais quando ele só diz: lave-se e fique limpo!”

Essa frase me pegou. Porque é verdade: se o médico tivesse me mandado fazer algo complicado, eu faria sem pestanejar. Marcaria, pagaria, enfrentaria agulha. O difícil a gente respeita. O simples a gente subestima. Parece pouco demais para o tamanho da nossa dor. Parece quase uma ofensa.

Tem uma coisa na história que eu nunca tinha reparado: não foi um mergulho. Foram sete. Naamã desceu ao Jordão e subiu com a pele igual. Desceu de novo. E de novo. Imagino que lá pelo quarto ele já estivesse se perguntando o que estava fazendo ali, com a água barrenta até o pescoço. Simples não quer dizer instantâneo. O simples também pede obediência e repetição…gelo hoje, gelo amanhã, braço quieto quando tudo pede movimento. Foi só no sétimo mergulho que a pele de Naamã ficou como a de uma criança.

A gente faz muito isso. Espera a cura extraordinária, o milagre à altura da nossa ferida, a resposta com cena e tudo. E às vezes Deus nem sai na porta: só manda dizer o que fazer. Descansar. Pedir ajuda. Voltar para a oração de todo dia. Beber água, dormir, parar. Coisas pequenas demais para o tamanho do nosso orgulho.

Às vezes a cura está ali, na simplicidade. Só falta a gente descer no rio.

Love love love, Lu.

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