Somos visigodos

Nos últimos dias, fui pesquisar sobre dois povos: os visigodos e os judeus. Em uma palestra sobre cultura, os dois povos foram citados. Queria entender por que uma cultura desaparece e outra atravessa gerações. Achei que ia encontrar uma curiosidade histórica, mas acabei encontrando um espelho nosso. 

Os visigodos já foram poderosos. Saquearam Roma, governaram a Península Ibérica por quase dois séculos. Tinham língua própria, alfabeto próprio, até uma Bíblia traduzida para o gótico. E, mesmo assim, foram cedendo, uma coisa de cada vez. Deixaram a identidade morar no poder, na elite, e não dentro de casa. Viviam em disputa, rei derrubando rei, facção contra facção. Quando o reino caiu, em 711, não havia nada que os segurasse. Em poucas gerações, sumiram. Sobraram alguns nomes, umas ruínas e uma lembrança vaga.

Os judeus perderam tudo o que um povo pode perder: a terra, o Templo, o rei, a língua do dia a dia. Foram espalhados pelo mundo por quase dois mil anos. Perderam os bens, mas nunca a identidade e os valores. Porque trouxeram a cultura para o dia a dia, para dentro de casa. A mesa era o santuário. Ensinar os filhos era mandamento.  E, detalhe, os reis visigodos perseguiram os judeus. O povo que tinha o poder sumiu. O povo perseguido continua aqui. Porque o perseguido tinha propósito, e propósito é mais forte que poder.

Cultura que depende do palácio cai com o palácio. Cultura que mora na mesa da cozinha atravessa impérios. 

Socorro, é isso que a gente faz. A gente vai aderindo à identidade do mundo, e não à de Cristo. Vai abrindo mão de valores, um de cada vez, quase sem perceber. Vai normalizando comportamentos que não deveriam ser normalizados. Nossa tendência humana é se apegar ao ego, ao status…exatamente onde os visigodos colocaram a identidade deles. Meu Deus, somos visigodos.

A Bíblia já tinha descrito esse momento. Depois de Josué, depois de uma geração inteira que viu Deus abrir o Jordão, está escrito: “E levantou-se outra geração que não conhecia o Senhor” (Juízes 2:10). Não precisou de exército. Bastou uma geração sem transmissão. E Deus sabia disso desde o começo. Por isso mandou erguer pedras à beira do Jordão, “para que, quando vossos filhos perguntarem: que significam estas pedras?” (Josué 4:6), houvesse uma história para contar. E por isso disse: “Estas palavras estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te” (Deuteronômio 6:6-7). Em casa. No caminho. Na hora de dormir e na hora de acordar. Não no palácio.

É por isso que tradições são importantes e necessárias. Não como enfeite, nem como saudosismo, mas como as pedras do Jordão: coisas que a gente faz de propósito para que alguém pergunte, e para que a resposta seja Cristo. A oração antes da comida. O culto em família. O “não” que a gente sustenta mesmo quando todo mundo ao redor diz “sim”.

Assustadoramente, estamos nos tornando visigodos. Mas ainda dá tempo de ser o outro povo. De preservar as tradições, de criar filhos que conheçam o Senhor, de não nos amoldarmos aos padrões deste mundo, como está em Romanos 12:2. 

Todos os dias na minha casa tem oração e seguirei criando tradições. Meu filho ainda é pequeno demais para perguntar. Mas, quando ele perguntar, eu quero que a resposta já esteja lá.

Love love love, Lu.

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