Saí de Brasília com 25 anos. E quem já mora há muito tempo fora ou mudou bastante de cidade já sabe de uma coisa: a saudade vem junto na mudança, mesmo que ninguém tenha colocado ela na mala. Em cada cidade nova, eu sentia falta de alguma coisa. Principalmente da família, daquele abraço sem precisar de passagem de avião. E das amigas, aquelas que entendem uma história sem precisar de contexto. Dos programas que eram nossos e que, em outro lugar, simplesmente não existem.
Ontem de manhã estava um dia lindo de sol. Moro, graças a Deus, na frente da praia, e meu marido disse: “Vamos dar um pulo na praia? Um mergulho?” Eu fui. E, lá dentro d’água, me veio o pensamento: estou longe da minha família, longe das minhas amigas… mas olha o privilégio que é poder dar um mergulho no mar numa manhã qualquer. Estar perto de Deus assim, de um jeito tão simples. Isso é presente.
Só que eu sei que nem sempre eu teria enxergado. Se estivesse presa só no que falta, talvez aquele mergulho fosse só mais um mergulho. Ou nem fosse. A saudade, quando a gente se agarra demais a ela, tem esse poder: ela não só dói, ela cega. A gente fica tão ocupada olhando para trás que não percebe o que Deus está colocando bem na nossa frente.
O povo de Israel conheceu isso de um jeito muito mais duro. Levados para a Babilônia, longe da terra, do Templo, de tudo o que era deles, escreveram um dos salmos mais tristes da Bíblia: “Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião” (Salmo 137:1). Penduraram as harpas nos salgueiros. Não dava para cantar longe de casa.
E aí Deus manda uma carta para eles, pelo profeta Jeremias. A promessa de volta até existe — mas vem depois. Primeiro vem algo quase desconcertante: “Edificai casas e habitai nelas; plantai pomares e comei o seu fruto” (Jeremias 29:5). Casem, tenham filhos, procurem a paz da cidade onde vocês estão. Como quem diz: a saudade de Sião é legítima, mas não deixe que ela impeça você de viver aqui. Tem fruto para comer nesta terra também.
Não estou dizendo que a saudade é errada. Ela é a prova de que a gente amou e foi amada em algum lugar. Eu ainda sinto falta, e vou continuar sentindo. Mas aprendi que dá para carregar a saudade sem deixar que ela feche os meus olhos. Dá para sentir falta de quem está longe e, no mesmo dia, agradecer pelo mar que está perto.
Deus não para de entregar presentes só porque a gente mudou de endereço. Pequenos e gigantes, todos os dias: um sol de manhã, um convite despretensioso, um mar na frente de casa. Só precisa de olhos abertos para ver.
Hoje, antes de ligar para matar a saudade de alguém, quero fazer outra coisa primeiro: olhar em volta e nomear um presente daqui. E aí, sim, ligar e contar.
Love love love, Lu.
