O outro lado do desconforto

No começo, lembro que era incômodo.

Havia alguém cuja presença despertava um estranho desconforto. A impressão era de que me imitava – os gestos, os gostos, até o jeito de falar. E aquilo, para minha versão mais jovem e ingênua, soava como uma afronta. A juventude tem essa mania de se achar única, especial, um brilho que ninguém mais pode replicar. E eu, tomada pelo orgulho e pela vaidade, me sentia incomodada.

Por um tempo, tentei ignorar. Adorava a convivência, me identificava, me divertia, mas, ao mesmo tempo, criava barreiras invisíveis. Como se traçasse linhas imaginárias que ela não deveria cruzar. Mas a vida, com sua sabedoria, insistia em nos manter próximas. As circunstâncias nos juntavam mais e mais, como se houvesse algo maior nos conectando. E, aos poucos, algo começou a mudar.

Não foi da noite para o dia, mas um instante específico ficou marcado. Em um ambiente familiar, a observava em silêncio. E vi. Vi sua essência em seus gestos, percebi sua autenticidade por trás do que eu chamava de imitação. Foi então que comecei a enxergá-la de verdade. E então, uma pergunta veio ao meu coração: e se, ao invés de afastá-la, eu me permitisse conhecê-la de verdade?

O orgulho pode ser uma prisão. Ele isola, fecha portas, impede encontros. Quantas vezes afastamos pessoas por medo de perder nossa identidade, sem perceber que a vida nos dá oportunidades valiosíssimas de aprendizado? E se, ao invés de enxergar o outro como uma ameaça, víssemos como um espelho?

Foi exatamente isso que aconteceu. Quando baixei a guarda, descobri um coração gigante. Uma pessoa que, assim como eu, só queria ser compreendida, amada, aceita. No espaço da humildade e da entrega, nasceu uma amizade que nunca mais se desfez. As pessoas têm papéis fundamentais em nossa vida. Ninguém cruza nosso caminho por acaso. O orgulho e a vaidade podem nos tornar solitários, mas a escolha de se abrir ao outro nos leva a destinos extraordinários.

A Bíblia ensina sobre isso. Em Provérbios 16:18, está escrito: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” O orgulho nos distancia, enquanto a humildade nos aproxima daquilo que realmente vale a pena.

Hoje, olho para trás e percebo o quanto teria perdido se tivesse insistido na vaidade. Escolhi construir, e essa escolha me deu uma amizade que se fortalece a cada dia. Essa amiga é aquela pessoa que me vê nua e crua, com os meus erros e acertos e ainda assim me ama. Crescemos juntas, nos transformamos, nos desafiamos.

A vida nos dá escolhas diárias. Podemos optar por permanecer no ego ou nos permitir evoluir. E, quando escolhemos o amor, sempre saímos ganhando. O amor sempre ganha.

No fim não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.

•⁠ ⁠Para a minha amiga: Te amo com toda a minha força. Obrigada por ter sido um instrumento valioso na minha vida, me ajudando a desconstruir o que não me acrescentava e a construir algo que nos edifica.

Love love love, Lu.

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