O Encontro

Existe uma versão minha antes e depois de aceitar Jesus. E confesso que, a cada passo que avanço na fé, começo a enxergar com mais clareza os recortes e fragmentos da pessoa que fui até aqui. O desafio não é apenas reconhecer essa antiga versão, mas aprender a olhá-la com compaixão. Perdoar algumas partes dela. Aceitar que, mesmo diante de escolhas que hoje não fazem mais sentido, elas eram o reflexo da ignorância que eu tinha então.

Sempre preferi focar no lado bonito da vida. Mas a verdade é que o perdão só acontece por inteiro quando encaramos as sombras de frente. É preciso descer às profundezas do que fomos, reconhecer erros, faltas, desvios. E isso incomoda. E se dói, é porque cura.

Outro dia, chamei a minha versão sete anos mais nova para um café. Ela chegou atrasada. Ainda não sabia que São Paulo ensina na marra que tempo é valioso. Sentou-se à minha frente, com a pressa de quem sempre corre, mas não sabe ao certo para onde. Eu cheguei no horário. Aprendi que Deus tem um ritmo próprio e que não adianta se apressar quando o que importa é o processo.

Ela pediu um espresso puro. Eu pedi o mesmo. Ela usava cílios postiços, unhas vermelhas, franja, vestido e botas. Eu usava uma saia preta, t-shirt branca, salto, alguns acessórios e cabelos soltos. 

Ela foi direto ao ponto: — Nos tornamos uma comunicadora de sucesso?

Sorri. E respondi que sim. Que temos uma agência, que somos diretora de comunicação, escritora e que também trabalhamos com saúde, impactando vidas.

Ela sorriu, satisfeita, mas não parou por aí.

— E continuamos escrevendo? — Sim. Três livros. Histórias que talvez você ainda tenha medo de contar.

Seus olhos brilharam. Ela sabia que um dia teria coragem.

— E somos felizes? — Sim. E continuamos concordando que viver é imperdível, mesmo nos desertos.

Ela riu. Ainda acreditava nisso. Mas, então, hesitou antes de perguntar:

— Ainda estamos solteiras?

Inclinei-me para frente e sorri. Disse que Deus, da forma mais inesperada possível, me apresentou o homem da minha vida. Que logo eu me casaria.

Ela piscou, surpresa. Tentou processar a informação.

— Você foi além do que eu imaginava.

— Só porque você teve coragem de começar. Obrigada por não ter desistido.

Ela abaixou o olhar. E ali eu vi. Um nó na garganta.

— Eu podia ter feito tanta coisa melhor.

Respirei fundo. Sabia que esse encontro era sobre isso.

— Eu sei. Eu também.

— Eu não gosto de algumas partes de mim.

— Nem eu gostava. Mas aprendi algo: “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 João 1:9)

Ela mordeu o lábio. Olhou para o lado, como se quisesse fugir.

— Incomoda. Por vezes, dói reconhecer tudo…

— Dói. Porque para se curar, você precisa enxergar as feridas. Para se perdoar, precisa antes admitir o que fez ou da forma que fez. Mas é assim que Jesus reconstrói.

Ela respirou fundo. O ar ficou pesado.

— Então eu preciso encarar tudo?

— Sim. Mas com compaixão. Porque até sua pior versão só agiu assim porque não conhecia a verdade.

Ela fechou os olhos. Sabia que eu estava certa.

— O nosso Pai é amor, mas Ele não passa a mão na nossa cabeça. Ele nos disciplina porque nos ama. “Porque o Senhor disciplina a quem ama, e castiga todo aquele a quem aceita como filho.” (Hebreus 12:6)

Ela me olhou nos olhos, buscando algo.

— Vale a pena?

Peguei sua mão.

— Mais do que você imagina. Porque quando você finalmente se rende, quando deixa tudo aos pés da cruz, descobre que a paz que excede todo o entendimento não está em ter um passado impecável, mas um futuro redimido.

Ela sorriu entre as lágrimas.

— Eu vou conseguir?

— Já está conseguindo. O melhor — com Jesus — ainda está por vir.

O café acabou. Mas a jornada dela, a nossa, só estava começando.

Se há algo que aprendi, é que Deus não desperdiça nada. Nem as dores, nem os erros, nem os desvios. Porque até os buracos no caminho foram misericórdia. Foram proteção. E quando olhamos para trás com compaixão, entendemos que cada falha foi também um convite para voltarmos ao propósito. “Ainda que tenham sido lançados até os confins da terra, de lá o Senhor, o seu Deus, os reunirá e os trará de volta” (Deuteronômio 30:4). Ele sempre esteve lá. Sempre soube o caminho de volta. Sempre nos esperou com amor. E continua nos chamando para o que há de melhor: um futuro redimido, guiado por Ele. No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que deve ser.

Love love love, Lu.

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