Pode largar a bandeja

Eu sempre admirei quem consegue carregar tudo sem deixar nada cair. Quem equilibra trabalho, casa, relações, fé e ainda encontra tempo para sorrir. Durante anos, achei que essa era a prova de que uma mulher era forte: a capacidade de segurar todas as pontas sem nunca demonstrar cansaço. Mas isso não existe. A bandeja pesa para todas. E então, um dia, a bandeja pesou.

No começo, era só um incômodo, como aquele momento em que seguramos algo por tempo demais e os braços começam a formigar. Mas eu não podia largar. A cada dia, um novo prato se somava: expectativas, responsabilidades, promessas feitas sem pensar, tarefas que ninguém via, mas que precisavam ser feitas. Eu carregava tudo porque achava que era assim que se provava o valor. Alguém aí se identifica? E então vi Maria.

Ela estava ali, sentada aos pés de Jesus, ouvindo, absorvendo. Marta – eu, em outra pele – corria de um lado para o outro, tentando servir, tentando organizar, tentando fazer com que tudo estivesse perfeito. “Senhor, não te importa que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço?”. E pensava: quem tem tempo pra isso?

Sim, eu já fiz essa pergunta. Já olhei para o lado e me perguntei por que algumas pessoas conseguem simplesmente parar enquanto eu continuo carregando. Já me ressenti por estar sempre ocupada, enquanto outros pareciam ter tempo para si. Mas então veio a resposta de Jesus, a resposta que eu tentei ignorar por tanto tempo:

“Marta, Marta, você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia, apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lucas 10:41-42)

A verdade é que Deus nunca pediu que equilibrássemos tudo sozinhas. Ele nunca disse que nosso valor está na sobrecarga, na capacidade de sermos supermulheres. Fomos nós que colocamos essa expectativa em nós mesmas. O mundo ensina a medir o nosso valor pela produtividade. Como é difícil remar contra. Mas como ser Maria em um mundo que exige que sejamos Marta o tempo todo?

Não temos tempo. Essa é a desculpa que usamos. Mas será que não temos mesmo? Ou será que, na ânsia de dar conta de tudo, nos convencemos de que parar é perder tempo? Eu ainda não tenho filhos, e fico pensando nas mulheres que ainda somam esse fato na equação. Mas vejo mães que vão até o limite pelo prato dos seus filhos. Vejo mulheres que se doam até o último fio de energia porque acham que precisam carregar tudo. Vejo em mim a dificuldade de soltar, de deixar de medir meu valor pela produtividade.

Não acho que seja possível – nem necessário – ser 100% Maria. Há momentos em que precisamos agir, organizar, cuidar. Mas talvez possamos aprender a alternar. A entender que há um tempo para servir e um tempo para sentar. A perceber que nossa força não está em quão cheias nossas mãos estão, mas na nossa capacidade de confiar. Porque largar a bandeja não significa desistir. Significa entregar. Significa entender que nem tudo depende de mim. Que o amor de Deus não está condicionado ao que eu faço, mas a quem eu sou.

Hoje, ainda pego a bandeja. Mas ela está mais leve. Porque agora, antes de sair equilibrando tudo outra vez, eu me permito sentar. Eu me permito escolher a boa parte. E, no fim, percebo que essa é a força que eu sempre procurei.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 



 *Ainda não li, mas me recomendaram o livro cristão inspirado na passagem de Marta e Maria, “Seja Maria em um Mundo de Marta”, de Joanna Weaver. Está na minha fila para ler. 

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