A outra metade da tatuagem

Eu tenho uma tatuagem que diz: “prefira poetizar seus olhos a censurá-los”. Lembro bem do porquê de tê-la feito. Eu queria ver poesia no corpo, ver beleza onde muita gente via pecado, não enxergar maldade em tudo. E não vou apagá-la. Ela continua dizendo coisas pra mim, só que hoje diz mais do que dizia antes.

Antes de entregar minha vida para Jesus, meu discurso era de liberdade. O corpo é meu, as regras são minhas, faço o que eu quiser. E, se alguém se incomodasse, o problema era dele. Não era tudo errado: sentir-se dona de si, gostar do próprio corpo, não viver presa ao olhar alheio, isso não é o problema. O problema é que, naquela versão de mim, só cabia uma pessoa no centro. Eu.

O que mudou foi a consciência. De que o mundo é caído, de que o ser humano é falho, e de que o olho do outro nem sempre é bom. Eu podia estar vendo poesia; quem estava do outro lado talvez não. E aí vem a constatação que não é bonita: quantas vezes eu fui pedra de tropeço para alguém sem nem perceber? Quantas vezes a minha liberdade pesou no caminho de outra pessoa enquanto eu dizia “não é problema meu”? O curioso é que, se parar pra pensar, a minha tatuagem tem respaldo. Jesus disse: “Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz” (Mateus 6:22). A maldade, muitas vezes, mora mesmo no olho de quem vê. Poetizar os olhos, educar o próprio olhar para enxergar beleza em vez de malícia, é um bom caminho, mas esse é só um pedaço da história.

 Paulo, na Bíblia, conta a outra parte. Escrevendo para uma igreja que discutia liberdade, ele diz: “Tenham cuidado para que o exercício da liberdade de vocês não se torne uma pedra de tropeço para os fracos” (1 Coríntios 8:9). E, mais adiante: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém. (…) Ninguém deve buscar o seu próprio bem, mas sim o dos outros” (1 Coríntios 10:23-24). Paulo não nega a liberdade. Ele só tira o “eu” do centro dela.

Foi aí que eu entendi: a minha tatuagem fala do meu olho. Mas eu também sou responsável pelo que coloco diante do olho do outro. Uma coisa não cancela a outra. Eu posso, e devo, poetizar os meus olhos. E posso, e devo, cuidar para não ser tropeço para olhos que ainda não aprenderam a ver poesia. Não é fácil criar esse termômetro. Não existe régua pronta, nem lista que resolva tudo. É muito mais difícil do que parece. Mas hoje eu tenho muito mais consciência e muito mais cuidado, não por medo, nem por vergonha do meu corpo, e sim por amor ao próximo. Liberdade que só pensa em si é egoísmo com nome bonitinho. 

Liberdade que pensa no outro, essa sim, é mais parecida com Cristo. Hoje, quando olho para a minha tatuagem, leio a frase com dois pares de olhos: o meu, que continua escolhendo ver beleza, e o do outro, que agora eu também escolho enxergar.

Love love love, Lu. 

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