A paz de estar em paz com Deus

Em uma manhã de domingo de novembro, andei pela praia do Rio de Janeiro, descalça, com os fones no volume máximo, ouvindo Los Hermanos. A cada música, sentia me encontrar com a minha Luísa adolescente, aquela que transformava as letras da banda na trilha sonora de dias que pareciam infinitos. O céu azul, a areia molhada nos pés, e eu longe… longe demais, imersa nos meus pensamentos.

Pensei em quanta vida já tinha vivido até o momento presente e  em quantas versões de mim ainda passaram por ali. Vivi muito, me aventurei em muitos caminhos, e agora sinto algo diferente. Algo maior. Sinto paz, não inquietude. 

Mas não qualquer paz. É a paz de estar em paz com quem sou hoje. Uma paz que entende que novas versões ainda estão por vir e que desertos futuros talvez me forjem de formas inesperadas.  Mas, por ora, aproveito a delícia desse tempo depois de atravessar desertos desafiadores nos últimos anos.

Lembrei de “O vento”: “Posso ouvir o vento passar, assistir à onda bater… mas o estrago que faz a vida é curta pra ver…”. Por mais que a tempestade deixe marcas, ela também traz a certeza de que a onda sempre volta a ser calmaria.

O equívoco mais comum é pensar que paz é ausência de desafios. Talvez este tenha sido o ano mais desafiador internamente, mas foi nele que recuperei algo inestimável: minha paz. Paz não é o oposto de luta; é a força que nos sustenta durante a batalha.

Como em “Sentimental”, pensei: “E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?”. Refletir sobre quem fui e quem sou trouxe reconciliação, não arrependimento. A paz está nesse encontro com a minha história e com o Deus que me resgatou.

Paz, afinal, o que é? Na Bíblia, paz aparece como algo sagrado. Em João 14:27, Jesus diz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” Essa não é a paz das circunstâncias favoráveis, mas a paz que vem de Deus, que excede todo o entendimento, como Paulo descreve em Filipenses 4:7.

Se pudesse defini-la de forma lúdica, diria que paz é como o vento: você não o vê, mas sente. É o sopro leve que te faz fechar os olhos e respirar fundo. É a mão invisível que afasta o peso dos dias. É a bússola que aponta para o norte mesmo em mares revoltos.

Como em “Mais uma canção”: “E hoje eu ando em paz, descobri o que é amar”. Essa paz não é feita de conquistas materiais ou dias perfeitos, mas da segurança de ser amada por um Deus que nunca me abandona.

Já experimentei a angústia de perder a minha paz. É um vazio que consome e devora. Nada, absolutamente nada, vale o preço de viver sem paz. Talvez por isso eu tenha aprendido a protegê-la com a mesma intensidade com que defendo quem eu amo.

Hoje, ela é meu valor absoluto. É mais que um sentimento; é um estado. É ouvir o som das ondas e do vento, mesmo em dias de tempestade. É saber que, apesar dos desafios, Deus é minha fortaleza e que, com Ele, posso descansar.

Paz é o privilégio de ser quem sou, sem pressa de chegar, sem medo de mudar. Paz é estar em paz com Deus, com o que fui, com o que sou e com o que ainda serei.

Love love love, Lu.

*a crônica carrega referências das músicas do Los Hermanos.

*Texto escrito em 2 de dezembro de 2024

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