À sua espera: Entre o peso e leveza

Passei a tarde deitada, sentindo o corpo falar mais alto do que eu. Um incômodo aqui, outro ali, que me fez parar e refletir sobre nós até aqui. É estranho — mas também divino — esse ato de emprestar o corpo para a vida crescer.

As formas que eu conhecia já não existem. Em seu lugar, curvas novas, quilos a mais, um cansaço que às vezes chega junto da falta de ar em uma simples ligação. O coração corre como se vivesse em maratona, os órgãos começam a se apertar em silêncio, o estômago reclama e tudo parece ter mais peso. Tudo muda, semana após semana. Celulites surgem, os seios doem, e eu já não sei de quem é esse corpo que antes era só meu.

Nunca criei grandes expectativas sobre este momento. Tenho me entregado ao processo, mas percebo que entregar-se é muito mais fácil de dizer do que de viver. Enquanto sirvo de casa para você, me sinto num casulo, sendo reformada para te receber. Há algo de milagre nessa metamorfose, não só no resultado, mas no caminho. Não é um conto lúdico, é um processo intenso, misterioso, sagrado.

De fora, o pai, a família, os amigos… podem apenas supor. Eles observam, tentam imaginar, mas não pisam nesse território secreto. Só nosso. A gestação é uma espécie de teletransporte: somos levadas para outro universo, uma incubadora invisível onde corpo e alma são moldados para caber mais vida. E nesse espaço, entre peso e leveza, me descubro diferente todos os dias.

Ninguém gosta de ouvir essa parte. É quase como se fosse proibido falar do lado “nem tão bonito assim” da gravidez. Esperam de nós apenas o relato do milagre, da beleza, da doçura infinita que é gerar uma vida. E sim, tudo isso existe, mas nem sempre vem sozinho. Ao lado do amor vem o medo, não por mim, mas por você. Uma mente que já não pensa por um, mas por dois.

É um contraponto diário. Um jogo entre desconforto e encanto, vulnerabilidade e potência, entrega e honra. Um contraste entre dúvidas e sorrisos. E no meio desse processo, sinto Deus. Ele está aqui, no silêncio do meu coração acelerado, no meu corpo que se expande, na vida que cresce dentro de mim. Ele me ensina que cada célula nova é um ato de criação, que cada desconforto é um ensaio para o amor. E que, assim como Ele me teceu na barriga da minha mãe, agora me convida a ser coautora dessa obra divina.

Nunca me senti tão forte, mas também nunca me senti tão vulnerável. Nunca me senti tão distante de mim, mas nunca tão honrada em ceder o que era só meu para ser sua morada, filho.

Dizem que ser mãe é aprender a transitar entre esses dois mundos e, no fim, escolher sempre o amor. Eu ainda estou aprendendo, mas já sei: não existe escolha maior nem entrega mais bonita do que essa, porque é a escolha que Deus confiou a nós.

Love love love, Lu.

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