Falando a real

Comecei a assistir à série Falando a Real (Shrinking), da Apple TV, e nos primeiros 30 minutos me vi presa na seguinte reflexão. Para contextualizar, preciso falar um pouco sobre a série e o primeiro episódio, que gira em torno de um psiquiatra que, enquanto tenta ajudar seus pacientes a enfrentarem os dilemas da vida, luta contra seu próprio luto por ter perdido a esposa em um acidente de carro (isso não é um spoiler. Pode respirar). Parece contraditório, não é? Um profissional da mente, que supostamente deveria ter as ferramentas para “consertar” a dor, precisando lidar às cegas com a sua própria. Mas é justamente nesse paradoxo que a série encontra sua força.

Vivemos em uma época em que a dor é frequentemente mascarada por sorrisos no Instagram e respostas automáticas como “está tudo bem”. Mas a verdade é que ninguém está imune. Nem o psiquiatra que estudou anos para entender as complexidades do comportamento humano. Nem o pastor que guia sua igreja. Nem o médico que salva vidas diariamente. Todo mundo tem uma batalha silenciosa ao longo da vida. Uma ferida escondida, que talvez só Deus veja.

E essa é a boa e a má notícia. A má: você não está imune. Em algum momento, a vida vai te desarmar, vai te testar, vai te expor à fragilidade da existência. Mas a boa notícia é ainda melhor: você também não está sozinho. Quando aceitamos que a vulnerabilidade faz parte de nós, abrimos espaço para algo mais importante e que muitas vezes esquecemos: a empatia. Começamos a perceber que a pessoa ao lado também carrega dores que nós desconhecemos. Que por trás de cada “bom dia” pode haver um coração em pedaços. Eu já precisei dar um bom dia caloroso enquanto chorava por dentro, precisei ministrar um curso enquanto vivia um luto. Quem não?!

A Bíblia nos lembra, em 2 Coríntios 12:9-10: “Mas ele me disse: ‘A minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte.” Essa passagem nos mostra que mesmo em nossas fraquezas e lutas, a força divina se manifesta. É como se, ao aceitarmos nossa vulnerabilidade, encontrássemos não só a graça de Deus, mas também o espaço para crescer, nos conectar com os outros e continuar caminhando, mesmo aos tropeços.

O psiquiatra da série, mesmo dilacerado, tenta e escolhe continuar. O personagem é ótimo. Imperfeito, erra, tenta e, às vezes, fracassa. Mas é nessa tentativa, nesse caminhar desengonçado, que encontramos algo humano: a coragem de seguir em frente, mesmo quando o mundo parece ter perdido o sentido. Ao menos naquele momento.

Nós também somos assim. Cambaleamos e nos dividimos entre a dor e a esperança, entre a tristeza e os momentos de alívio. E isso não é fraqueza. É ser humano. É lembrar que, embora a batalha seja silenciosa, nós nunca lutamos sozinhos.

Às vezes, é na troca de olhares com um estranho, na palavra amiga de um amigo ou mesmo no silêncio de uma oração que encontramos forças para mais um dia. E assim seguimos, como o psiquiatra da série, lidando com nossos lutos, nossas quedas, mas também com as pequenas vitórias que tornam a vida, apesar de tudo, maravilhosa para ser vivida. Sempre digo, independentemente, viver é imperdível.

Love love love, Lu.

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