O que você faz com o que sente?

Não podemos ser curados do que nos recusamos a sentir.”

Essa frase saltou aos meus olhos e não tive como desviar quando li. A vida toda ouvimos do mundo que precisamos ser fortes. Que não podemos deixar a raiva nos consumir, que a angústia é falta de fé, que a ansiedade se vence com oração… E até há certa verdade nessas afirmações, mas isso não é tudo. 

Crescemos acreditando que fé de verdade não sente “essas coisas”. Mas não é isso que a Bíblia mostra. A Palavra é cheia de gente que sentiu tudo. E não apenas sentiu, escreveu, chorou, gemeu, gritou, questionou. E foi exatamente ali, no confronto com seus próprios sentimentos, que muitos encontraram, de fato, com Deus.

Davi, o homem segundo o coração de Deus, escreveu salmos que são quase gritos de socorro. “Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre?” (Salmo 13). Ele não disfarçava. Não passava por cima. Ele colocava tudo diante de Deus, fosse a alegria, o desespero, a vitória e o fracasso. A fé dele não era limpa, arrumada e tranquila. Era real. Cheia de emoções cruas e contraditórias.

E Elias? Profeta, canal de milagres, corajoso diante dos reis… mas depois, exausto, se deitou debaixo de uma árvore, em depressão e pediu para morrer (1 Reis 19). Ele não deu conta. E o que Deus fez? Mandou um anjo com comida e água. Permitiu que ele dormisse. E só depois falou com ele. Porque antes de curar a alma, Deus cuidou do corpo. Isso é muito forte. 

Jesus, nosso exemplo maior, também sentiu. Em João 11, ao ver o luto de Maria e Marta, Jesus chorou. Mesmo sabendo que ressuscitaria Lázaro, Ele chorou. Não porque era fraco, mas porque era humano. Porque Ele sente conosco. No Getsêmani, suou sangue em angústia. Pediu ao Pai: “Se possível, afasta de mim este cálice” (Mateus 26:39). Isso não é uma oração tranquila. É um clamor de quem sente medo, dor, angústia. E ainda assim, escolhe confiar.

Quantas vezes nós não escolhemos o caminho oposto? Ao invés de levar a Deus, a gente esconde. Disfarça com ocupações, com respostas prontas do tipo “tá tudo nas mãos de Deus”, quando na verdade, a gente tá só tentando fingir que não dói. Mas aquilo que a gente não sente, não se cura. O que a gente esconde, apodrece. Vai ficando ali, agindo no inconsciente, moldando nossos pensamentos, nossas reações. Um dia explode. Ou adoece o corpo. Ou endurece o coração.

Fé não é negação de sentimento. Fé é saber o que fazer com eles. A Bíblia não nos convida a não sentir. Nos convida a lançar sobre Deus todas as nossas ansiedades (1 Pedro 5:7). A trazer à luz aquilo que dói. A não permanecer na dor, mas também a não negá-la. Porque a dor precisa ser sentida para ser entregue.

Talvez seja por isso que tantos se sentem travados na vida espiritual. Porque querem viver curados de emoções que nunca aceitaram ter. A gente diz: “Deus, me cura.” Mas Ele responde: “Filho, você precisa me entregar.” E como entregar algo que você finge que não existe?

Deus não se assusta com suas emoções. Ele sente. Ele sabe. Ele entende. Porque Ele é Deus, sim, mas também é Pai. E um Pai presente quer saber do que machuca. Quer cuidar da ferida antes de apontar o caminho. Ele não quer a nossa perfeição. Ele quer o nosso coração quebrantado. 

O que adoece não é sentir. É reprimir, é esconder, é carregar tudo sozinho. O que nos cura é abrir espaço. Reconhecer a dor, apresentar a Deus, permitir que Ele entre nas lacunas entre o que esperávamos e o que estamos vivendo.

A dor não precisa ser o fim. Pode ser o começo de uma conversa sincera com Deus. Um caminho novo de cura. Porque viver com fé não é anestesia. É presença. É ter com quem chorar. É saber para quem correr. E confiar que mesmo quando não sentimos, Ele está.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é pra ser. 

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