Calejada

Eu já fui cancelada. Já tive a minha vida íntima e pessoal exposta. Já fui julgada, apontada, comentada por gente que nunca sentou na minha frente. E eu lembro bem da primeira vez. Aquilo me machucou. Doeu de um jeito que eu não sabia que podia doer, vindo de pessoas que eu nem conhecia. Outro dia me perguntaram, numa mensagem no direct, se eu não me importava com os ataques. Com a grosseria, com a falta de educação que eu recebo. Se aquilo de fato me afetava ou não. Eu respondi que não. Mas nem sempre foi assim. Quem já passou por isso sabe: a gente fica calejada e aprende a calejar.

Depois de ter sido cancelada pela primeira vez voltei para dentro. E me fiz umas perguntas. Quem é essa pessoa? O que ela sabe de mim para deduzir, me julgar e apontar o dedo? Nada. O que essa pessoa muda na minha vida? Nada. O que eu preciso provar para ela? Nada. E foi assim, pergunta por pergunta, que eu fui criando uma carcaça, e entendendo que as opiniões que de verdade impactam a minha vida são de poucas pessoas. Quase nenhuma. A mais importante é a de Deus. O único a quem eu tenho que prestar contas é Ele, que tudo vê, que tudo sabe, que conhece o meu coração. De resto, o que falam sobre nós diz muito mais sobre quem está falando do que sobre quem, de fato, está sendo atacado.

E, honestamente? Eu estou longe de ser perfeita. Ninguém conhece as minhas imperfeições melhor do que eu. Eu já errei muito. Já pequei, já cometi injustiça, já cometi iniquidade. Mas eu reconheci. Me arrependi. E, mais do que isso, eu me transformei. Aquilo não me pertence mais, não me define, não faz mais parte de quem eu sou.

Paulo sabia bem o que é isso. Antes de ser o apóstolo que escreveu boa parte do Novo Testamento, ele foi Saulo, o homem que perseguia a igreja, que assistiu à morte de Estêvão e aprovou. Tinha um passado que qualquer um poderia jogar na cara dele, e muitos jogaram. E é esse mesmo Paulo quem escreve aos coríntios, que viviam medindo e comparando os seus líderes: “Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano (…) quem me julga é o Senhor” (1 Coríntios 4:3-4). Não é arrogância. É endereço. Paulo sabia a quem prestava contas.

E ele sabia por quê. Na carta seguinte, escreve: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram, eis que se fizeram novas” (2 Coríntios 5:17). Renascer em Cristo não é só aceitar Cristo. É permitir que Ele entre na nossa vida e transforme o nosso ser. Então aquela pessoa que fez tudo aquilo morreu. Quer dizer que eu sou perfeita? Negativo. Sou humana, eu erro. Mas não erro mais como eu errava. Hoje eu tenho consciência, busco a santidade, busco ser carta de Cristo (2 Coríntios 3:3), 

E eu sei quem eu sou em Cristo. É essa identidade que me protege, que não deixa o mundo mudar a percepção que eu tenho de mim. Isso não quer dizer falta de humildade para reconhecer quando erro. Quer dizer saber de quem eu busco opinião, de quem eu busco conselho: de pessoas que eu admiro e que compartilham dos mesmos valores que eu. O restante é apenas isso, a opinião do restante.

Mas que fique claro: eu nunca vou me acostumar com a má educação. Com a desumanidade, com a falta de bom senso das pessoas. Nunca. Calejar não é achar normal. Se hoje isso não me atinge como antes, eu sei que é consequência de uma régua espiritual que eu preciso manter sempre elevada, com os olhos no alto, fortalecida. Porque, se a gente enfraquece, perde o nosso escudo de proteção. Não à toa, Paulo chama a fé de escudo (Efésios 6:16): ele só protege enquanto a gente segura.

E eu oro para que essa carcaça nunca chegue ao coração. Oro para sempre ser capaz de sentir compaixão por quem me machuca. Quer dizer que eu vou estar sempre com a régua lá em cima, reagindo do melhor jeito? Não necessariamente. Somos humanos. Mas a minha oração é para estar sempre centrada, para não perder o foco.

E, honestamente, sentir compaixão, e dizer isso, é o que mais afeta e irrita quem não é espiritual. Porque não dá para falar de coisas espirituais com quem não é espiritual. Isso deixa essa galera louca. Paulo, de novo, já tinha avisado: para quem não tem o Espírito, as coisas de Deus parecem loucura (1 Coríntios 2:14). Então, respondendo de verdade àquela mensagem: não, hoje não me afeta como afetava. Não porque eu me acostumei, mas porque eu sei a quem eu pertenço e escolho, todo dia, manter a régua lá em cima. E, da próxima vez que um comentário tentar me dizer quem eu sou, eu vou fazer o que aprendi a fazer: voltar para dentro, lembrar quem me julga e seguir. Porque nada constrói tanto a nossa autoestima quanto saber que somos amadas por Deus.

Love love love, Lu.

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