Há mais de três meses convivo com uma dor no braço, no punho para ser mais específica. Não é uma dor que me derruba, ainda dou colo, ainda troco fralda, ainda faço o que precisa ser feito, mas ela está lá, lembrando, todos os dias, que alguma coisa não está bem. E, mesmo assim, eu empurro com a barriga o cuidado que ela pede. Porque tem alguém que agora precisa de mim mais do que eu preciso de mim mesma: meu filho, de seis meses, a coisa mais importante que já me aconteceu.
E aí mora o nó. Sei que, quando eu finalmente for ao médico, muito provavelmente vou ouvir que preciso usar menos o braço…Que preciso de remédio, repouso, talvez uma imobilização. E como faço isso com um bebê em casa? Como uso “menos o braço” quando é o braço que embala, que segura a cabecinha, que sustenta o corpo inteiro dele? Parece impossível parar. Parece que o único jeito de dar conta de tudo é ignorar a dor e seguir. Eu segui até agora.
Só que eu sei, e talvez você também saiba, porque a gente faz isso com a vida inteira, não só com o corpo, que essa conta não desaparece só porque a adiamos. Ela cresce. E quanto mais adiamos cuidar de uma dor pequena hoje, maior é o risco de ela virar um estrago grande amanhã, bem no momento em que menos podemos nos dar ao luxo de parar. O paradoxo é esse: é exatamente porque meu filho precisa de mim que eu não posso continuar adiando. Se eu deixar o braço piorar até não aguentar mais, quem vai ficar sem colo, sem embalo, sem os braços em que ele mais confia, serei eu mesma quem terá me tirado dele, por tentar não me ausentar nem um pouco agora.
Na Bíblia, a história de Elias, diante de tantas lições, me lembrou de algo importante. Depois de enfrentar sozinho os profetas de Baal e fugir para o deserto, ele pediu a Deus para morrer de cansaço. E a resposta que ele recebe não é uma repreensão, nem uma nova missão urgente, é um anjo que o toca e diz: “Levanta-te e come.” Ele come, volta a dormir, e o anjo o desperta de novo: “Levanta-te e come, porque o caminho é longo demais para ti” (1 Reis 19:5-7).
Só depois de comer e descansar duas vezes é que Elias consegue caminhar quarenta dias até o monte de Deus. Deus não pede que ele ignore o cansaço para continuar servindo, pede o contrário: que descanse primeiro, porque a missão à frente exige um corpo que aguente chegar até o fim. Eu não preciso escolher entre cuidar de mim e cuidar do meu filho. Preciso entender que cuidar de mim é, agora, a forma mais séria de continuar cuidando dele porque o caminho com ele é longo demais para eu tentar percorrer com um punho que já avisou, há três meses, que não vai aguentar sozinho.
Marquei o exame para levar ao médico. Vou resolver isso essa semana. Com ele no colo.
Love love love, Lu.
