Nunca é nunca

Até o ano de 2023, eu não gostava de mel. Hoje é a coisa que eu mais coloco em absolutamente tudo. Nunca liguei muito pra arroz, e ultimamente estou amando comer com limão espremido toda semana. Um dia escrevi uma crônica mostrando o quanto a uva passa era a vilã do Natal, hoje não consigo pensar em uma ceia, ou melhor, a vida, sem ela. A uva-passa não mudou. O mel não mudou. Eu que mudei.

E é engraçado como a gente esquece disso. A gente decide, num dia qualquer, que não gosta de uma coisa — ou que não é capaz de outra, ou que aquilo simplesmente “não é pra mim” — e trata essa frase como se fosse um veredito para o resto da vida. Às vezes nem foi a gente quem decidiu sozinho: foi alguém que disse antes, e a gente só aceitou e guardou como verdade. E aí carrega isso por anos, sem questionar, perdendo, sem nem perceber, a chance de experimentar algo novo, algo delicioso, ou de se transformar.

Lembrei de Pedro, no telhado de uma casa em Jope, com fome, esperando a comida ficar pronta. Cai em transe e vê um lençol descendo do céu, cheio de animais que a Lei chamava de impuros. Uma voz manda: “Levanta-te, Pedro, mata e come.” E ele responde na hora, convicto: “De maneira nenhuma, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum ou imunda” (Atos 10:13-14). Ele tinha uma vida inteira de certeza sustentando aquele “nunca”. Mas a voz insiste — três vezes: “Não chames tu comum ao que Deus purificou” (Atos 10:15).

O mais interessante é que aquela visão não era só sobre comida. Deus estava usando o prato de Pedro para desarmar uma convicção antiga e prepará-lo para algo muito maior: aceitar que os gentios também tinham lugar no evangelho, ir à casa de um centurião romano que ele jamais visitaria por conta própria.

Muitas vezes é assim: a mudança começa pequena, quase besta..um gosto, um hábito, uma coisa que a gente jura que nunca vai fazer, e só depois a gente entende que aquilo estava abrindo espaço pra uma transformação bem mais profunda. Eu não preciso ter razão sobre quem eu era há dez anos. Preciso estar disposta a descobrir quem eu sou hoje, porque “nunca” é uma palavra que a gente empresta ao passado e, na maioria das vezes, esquece de pedir de volta.

Hoje cedo eu repeti o arroz. E da próxima vez que alguém me disser “eu nunca vou gostar disso” ou “eu nunca vou conseguir aquilo”, acho que vou contar essa história do mel, da uva-passa, da comida japonesa e de tantas outras que já torci o rosto. 

Love love love, Lu.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Luísa Peleja ® 2025. Todos os direitos reservados.