A história ainda não acabou

Era tarde da noite quando a consciência pesou mais do que o sono. Ou talvez tenha sido aquele lugar que você passou, ou uma visita inesperada de uma pessoa que não via há tempos que resgatou uma memória incômoda que parecia ter sido esquecida. A gente imagina que sabe lidar com o passado, que pode arquivar as dores em gavetas bem organizadas dentro da nossa cabeça. Mas, às vezes, elas escapam, mesmo quando o assunto já foi superado. Sempre tem aquela lembrança específica que se recusa a sair do lugar. Geralmente, são os nossos erros. Uma palavra dita na pressa, uma escolha impensada, um descuido que machucou alguém. Uma atitude que hoje reconhecemos como vergonhosa ou inadmissível. O coração aperta ao pensar no impacto daquilo. Como se perdoar? Como seguir sem carregar esse peso?

A resposta não veio como um alívio instantâneo, mas como um sussurro de compreensão. Perder dói. Errar e machucar alguém dói talvez ainda mais, porque a dor do outro se torna um espelho da nossa falha. Mas há algo que nem sempre enxergamos: às vezes, no processo do outro, alguém acaba se ferindo. Não porque deveria, não porque há uma regra fixa, mas porque somos humanos e, muitas vezes, esbarramos uns nos outros enquanto tentamos acertar. E se a outra pessoa não estiver pronta para perdoar? E se não houver como voltar atrás? Como lidar com o que já foi feito?

A Bíblia não justifica o erro, mas também nos ensina que o tropeço não é o fim. “O justo cai sete vezes e se levanta” (Provérbios 24:16). Davi errou gravemente, machucou outras pessoas no processo, mas encontrou arrependimento e redenção. Pedro negou Jesus, mas foi restaurado. Nenhuma dessas histórias termina na culpa.

Talvez aquela queda, aquele erro, seja só um pedaço da sua história. Um pedaço extremamente importante. Talvez o que dói hoje esteja sendo moldado para algo que ainda não conseguimos ver. O ovo precisa ser quebrado para que algo novo nasça. O erro pode ser o casulo que nos obriga a mudar, a nos tornarmos melhores, a nos voltarmos para Deus e para um propósito maior. E então vem a dúvida: o que fazer com quem foi machucado no nosso processo?


A Bíblia nos ensina sobre arrependimento, mas também sobre responsabilidade. “Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Romanos 12:18). Há coisas que podemos fazer: reconhecer o erro com humildade, pedir perdão genuinamente, tentar reparar o dano se houver essa possibilidade. Mas também há momentos em que não temos mais controle sobre o que acontece do outro lado. O tempo e a graça de Deus precisam operar ali.

Nem todas as histórias terminam com reconciliação. Algumas feridas demoram mais a cicatrizar. Algumas relações talvez nunca sejam restauradas. Mas se há aprendizado, há redenção. E se há redenção, a história ainda não acabou. Talvez essa seja a nossa maior lição: confiar que Deus trabalha em nós e nos outros. Nossa parte é seguir, aprender e estar prontos para quando a reconciliação (ou o recomeço) chegar. Porque, no fim, Deus não trabalha apenas em um lado da história. Ele escreve ambos.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu.

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