“Eu mesmo faço!” é quase a primeira declaração de independência de uma criança, e o mundo inteiro aplaude. Hoje em dia a régua começou ainda mais cedo: já se ensina autonomia para bebês.. dormir sozinho, comer sozinho, se acalmar sozinho. E a régua não muda com os anos, só troca de forma: seja autossuficiente, não dependa de ninguém, dê conta da sua vida sozinho. Cresce, se forma, se banque. Eu mesma fui criada assim, e sou grata por isso , me viro, me sustento, me basto. Educarei meus filhos assim. Só que, quanto mais eu vivo, mais percebo que essa régua conta só metade da história.
A Bíblia conta a outra metade (e como precisamos dela!!), e ela começa muito antes de qualquer coisa dar errado. “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18) foi dito no Éden, antes do pecado entrar no mundo. Ou seja: dependência não é defeito de fabricação, remendo para um mundo quebrado. É o projeto original. Fomos desenhados, desde o início, para precisar de Deus e uns dos outros.
Em um dos cultos que fui recentemente, o pastor trouxe exemplos que não saem da minha cabeça. Gansos voando em bando, na formação em V, alcançam até 70% mais distância do que um ganso sozinho, o ar que um desloca sustenta o próximo. No ciclismo, pedalar no vácuo de quem vai à frente reduz em até 30% o esforço para manter a mesma velocidade. E o corpo: um dedo mindinho parece dispensável, até você perceber, a cada gesto simples do dia, o quanto ele fazia falta. Nada no projeto de Deus, nem na natureza, nem no corpo, nem na igreja, foi feito para funcionar sozinho.
Paulo escreve que “todos nós fomos batizados em um único Espírito para constituir um só corpo” e que “cada um de vocês é membro desse corpo” (1 Coríntios 12:13,27). Um corpo não é uma coleção de indivíduos independentes debaixo do mesmo teto, é membros que só funcionam plenamente quando dependem uns dos outros. E tem uma cena em Marcos 2 que ilustra isso de um jeito que dói de bonito: um paralítico que nunca chegaria sozinho até Jesus. Foram quatro amigos que o carregaram, abriram caminho e o desceram por um telhado. O texto diz que Jesus viu a fé deles, a fé de um grupo que se recusou a deixar alguém de fora só porque ele não conseguia chegar com as próprias pernas.
E aqui confesso a minha quase loucura, porque é contraditória e mesmo assim é nela que eu acredito: eu, mulher, fui criada para ser independente, e amo ter crescido assim. Mas hoje vivo tentando equilibrar duas coisas que a cultura me ensinou como opostas — saber me virar sozinha e me deixar ser ajudada. Depender de Deus sem deixar de ser capaz. Não é uma equação que fecha bonitinho; é uma tensão que eu carrego todo dia, e talvez carregue a vida inteira. A cultura moderna ensina que precisar de alguém é fraqueza. A Bíblia ensina o contrário: negar que precisamos dos outros não é força, é orgulho disfarçado de virtude (Provérbios 18:1). E o próprio evangelho começa admitindo isso: ninguém se salva sozinho. Precisamos de Jesus. E, por causa disso, precisamos uns dos outros. Na jornada com Cristo, aprendi a depender primeiro de Deus, e depois dos outros. Fui criada pra ser parte de um corpo, de uma família, de uma casa.
Não vou fingir que resolvi essa contradição, ela ainda mora em mim, entre o “eu mesma faço” que me formou e o “não é bom que o homem esteja só” que me sustenta. Busco o equilíbrio: amo e valorizo a minha independência, para não me colocar em situações em que meu poder de escolha possa me ser tirado, mas entendo e valorizo, também, a interdependência.
Mas hoje, na próxima vez que eu sentir vontade de carregar alguma coisa sozinha só para provar que consigo, vou parar e perguntar: quem são meus quatro amigos nessa história, e por que ainda não liguei pra eles?
Love love love, Lu.