Quando a gente ainda não é mãe e falam que a gente demora a se reencontrar, que passamos por algumas mudanças, a gente não acha que é tão profundo assim. Nem quando chega.
Sempre me considerei uma pessoa criativa. Cheia de projeto, cabeça fervendo, mil ideias andando ao mesmo tempo. Ultimamente eu me olho no espelho e não encontro essa mulher. Onde ela foi parar? Talvez ela esteja bem aqui, só que do tamanho de um bebê que dorme no meu colo e que, de repente, virou o maior projeto que eu já tive. Isso me deixa um pouco assustada, confesso. Não porque eu sinta saudade de quem eu era, só é…estranho. É olhar pra minha lista de produção de hoje e ver: panela de pressão pra comprar, comidinha pra fazer, casa pra organizar e mama entre o trabalho e uma reunião e outra.. Coisas silenciosas. Coisas que não cabem numa foto, que não rendem curtida, que ninguém vai ver passando o dedo na tela. E, ainda assim, são grandiosas. Só que fomos treinados a chamar de produtivo só aquilo que aparece ou a medir o nosso valor pela nossa produtividade aos olhos do mundo, não aos nossos olhos. Louco, né? Mas a maternidade pede uma pausa e um reset. Naturalmente. Não dá pra querer ter tudo.
E quando paro pra fazer essa autocobrança, de vez em quando ainda me envergonho, porque eu sigo trabalhando, vou lançar um livro no final do ano, só não estou produzindo além, sem espaço mental pra criar pra mim. E, talvez por isso, ando um pouco mais off de rede social. Justamente porque parece que o mundo está andando em outra velocidade. E está. Não é só preguiça, é instinto: minha atenção é pouca agora, e alguma parte de mim sabe o que realmente precisa da minha atenção nesse momento.
Mas acho que ninguém me avisou que existia isso… matrescência, chamam. Essa reorganização inteira de quem a gente é quando vira mãe. Não é só a rotina que muda, é o próprio chão. E faz sentido que a criatividade pareça ter sumido: ela não sumiu, ela migrou. Não estou apegada a quem eu era. Só estou no limbo de quem estou virando, sem saber ainda se essa vontade de ficar no meu mundinho é definitiva ou só uma fase que passa. E, no fundo, sei que é fase. E passa… Mas viver o meio do caminho, sem clareza de quando ele termina, também assusta.
Pensando bem, não acho que eu tenha perdido a criatividade. Talvez ela só tenha trocado de palco do Instagram pra dentro de casa, do post pro cozimento, da plateia pro colo. E quando a vontade de criar pra fora voltar, não vai ser fuga desse silêncio. Vai ser transbordamento dele. Hoje eu não vou cobrar de mim nenhum projeto novo. Vou só nomear, aqui, que muito colinho também é obra. Enquanto isso vou compartilhando os processos. Sempre em busca da minha melhor versão.
Love love love, Lu.
