Despedidas de mim

Ao longo da vida, me despedi de muitas versões de mim mesma.

Algumas se foram tão sutilmente que só percebi quando algo já não doía como antes. Outras, precisei deixar ir com resistência, quase como quem solta a mão de uma amiga que ainda ama — mas sabe que não pode mais acompanhar. A menina que tinha pressa, a mulher que dizia mais “sim” do que “não”, aquela que buscava perfeição como sinônimo de valor. Todas elas foram necessárias. Fizeram sentido no tempo em que existiram.

Mas permanecer presa ao que fui seria como viver num quarto com as janelas trancadas. Pode até parecer seguro, mas é um lugar sem ar. Sem vida. Sem expansão. E toda evolução exige espaço. E espaço só se cria quando abrimos mão. Mão do controle. Mão das certezas. Mão até das versões que um dia foram o melhor que podíamos ser. A Bíblia nos lembra:
“Eis que faço uma coisa nova; agora está saindo à luz. Porventura não o percebeis? Eis que porei um caminho no deserto e rios no ermo.” (Isaías 43:19) É preciso coragem para deixar Deus fazer novo caminho, mesmo quando ainda estamos tentando entender por onde andamos até aqui. Mas o novo de Deus não se encaixa em espaços antigos. O vinho novo exige odres novos (Mateus 9:17). Não dá para viver as promessas de amanhã com os limites de ontem.

Viver com plenitude não é se agarrar ao que fomos, é honrar essas partes — e deixá-las partir. Porque só assim conseguimos nos tornar quem ainda seremos. O que vem, mais alinhado com quem somos agora, mais moldado pelo Espírito, merece um lugar inteiro. Não um espaço apertado, ocupado por apegos antigos, traumas não resolvidos ou glórias vencidas. E talvez seja esse o segredo da transformação: saber se despedir com amor, para seguir com leveza. Isso passa por pensamentos, por fazer as pazes com o espelho, com as rugas, com as cicatrizes da alma. É simples, mas não é fácil.

Quantas versões nossas cabem em uma vida? Quantas despedidas da pessoa que fomos ainda serão necessárias? Quantas vezes teremos que nos reinventar para viver as diferentes estações que Deus planejou? Hoje, na semana do meu aniversário, penso nisso. Nos últimos dois anos, fui espremida, virada do avesso, podada como uma videira sendo cuidada pelas mãos do Agricultor. Doeu. Foi confuso. Mas hoje, posso dizer com clareza: encontrei o prumo em Jesus. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas.” (2 Coríntios 5:17)

Muito ainda há para aprimorar, reconstruir, descobrir. Mas agora, sigo com a certeza de que estou na melhor companhia e guiada pela bússola que não falha: a Palavra de Deus. E quando tropeço, quando o medo da mudança tenta falar mais alto, lembro: “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele o fará.” (Salmo 37:5) Porque não é sobre saber exatamente quem eu serei, é sobre confiar em quem me conduz.

No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser. 

Love love love, Lu. 

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