Em algumas conversas que tive com minha mãe, lembro de uma frase que ela repetiu algumas vezes e que, à época, soava quase como um elogio:
“Minha maior tranquilidade em relação a você também é minha maior preocupação: você se basta.”
Eu sorria, satisfeita. Eu me basto. Sempre me basto. De fato, isso me poupou dores, decepções e muitas expectativas frustradas. Me ensinou a ser prática, resiliente, independente. Um presente que recebi dos meus pais e que agradeço até hoje. Mas, como todo presente, ele veio acompanhado de um peso que eu só conseguiria enxergar anos depois, depois de ter entregado minha vida a Jesus.
A questão nunca foi o que eu tinha, mas sim quanto disso eu acumulava. O excesso. O excesso de autossuficiência pode se transformar em arrogância, em uma vida sem laços resistentes. O que eu via como força, minha mãe via como um risco: a facilidade em seguir em frente, em trocar, em substituir. Relações, sentimentos, crenças. Quando algo não servia mais, eu seguia sem olhar para trás.
Vivemos na era do eu. Proteja-se, promova-se, preserve-se, divirta-se, conforte-se, cuide-se. Tudo gira em torno do nosso próprio bem-estar. Mas então Jesus vem e diz: “Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Um convite à renúncia, não à autoafirmação. E isso me incomodava.
Somos seres pecaminosos, inclinados em favor de nós mesmos. Nosso egocentrismo, nosso autoconsumo, nossa autojustificação, nossa autocomplacência, nosso esforço próprio e autoexaltação. Temos uma tendência perigosa de seguir na direção do que é fácil e popular. Mas o caminho de Cristo nunca foi o da conveniência. Ele é difícil e, vamos ser sinceros, impopular.
Por muito tempo, minha fé foi intelectual. Eu trabalhava para Deus, tentava merecer Seu favor, mas evitava olhar no espelho e admitir minha fragilidade, minha necessidade real d’Ele. Até que entendi que o verdadeiro encontro com Cristo não nos leva a um aprimoramento de quem somos, mas a uma morte. E dói. Morremos para o ego, para a autossuficiência, para a autoexaltação. E não porque é uma regra, mas porque, de repente, nada disso faz mais sentido. Nossa mente muda, nossos desejos mudam, nossas prioridades mudam, nossos relacionamentos mudam. O que antes amávamos, passamos a não gostar.
Nossa razão para viver muda. Porque o ego não é mais o nosso deus. E nada disso é uma obrigação instituída, mas um enorme prazer. Jesus merece mais do que a nossa crença intelectual. Ele merece um coração que reconhece sua total dependência d’Ele. Hoje, quando penso na frase da minha mãe, vejo além da preocupação. Vejo o amor de quem já sabia que, um dia, eu descobriria que me bastar nunca foi o objetivo. O propósito sempre foi pertencer.
No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.
Love love love, Lu.
