Queime os seus barcos, derrube as suas pontes

Há histórias que nos prendem como âncoras. Arrastamos os destroços de barcos que já deveriam ter sido queimados, atravessamos pontes que deveriam ter sido derrubadas há muito tempo. Vivemos no presente, mas a sombra do passado insiste em nos visitar.

A expressão “queimar os barcos” é histórica. Em 1519, Hernán Cortés, ao desembarcar no México, ordenou que queimassem seus navios, garantindo que sua tropa não tivesse outra escolha senão avançar. Retroceder não era uma opção. Mas muito antes de Cortés, outra história já carregava esse simbolismo. Eliseu, ao ser chamado por Elias, sacrificou seus bois e queimou o arado (1 Reis 19:21). Ele destruiu o que o ligava à sua antiga vida. Era um caminho sem volta.

Se queimar os barcos fala sobre compromisso, derrubar as pontes trata de libertação. A ideia de “derrubar as pontes” também tem raízes históricas e estratégicas. Diferente de queimar os barcos, que simboliza um compromisso absoluto com um novo caminho, derrubar as pontes significa impedir qualquer retorno ao passado—seja por segurança, por insistência ou por medo do desconhecido.

Um exemplo clássico vem da estratégia militar de Júlio César, que, ao atravessar o Rio Rubicão em 49 a.C., tomou uma decisão irreversível. Ele proferiu a famosa frase “Alea jacta est” (“A sorte está lançada”) e avançou rumo a Roma, iniciando uma guerra civil que mudaria o Império Romano para sempre. Embora César tenha cruzado o Rubicão, o simbolismo por trás de sua ação se assemelha ao conceito de destruir as pontes: não havia volta. Outro exemplo ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando exércitos, ao recuarem ou avançarem, destruíam pontes estratégicas para impedir o inimigo de seguir ou para obrigar sua própria tropa a continuar avançando.

Quantos barcos ainda não queimamos? Quantas pontes insistimos em manter, mesmo sabendo que elas só nos levam de volta ao que precisa ser deixado para trás?

No fim de semana, conversei com alguém que vive há mais de seis décadas arrastando a culpa. Sua vida seguiu adiante, mas a angústia a acompanha. Pesa. Ela já caminhou, já construiu, mas nunca se permitiu soltar as correntes. Na fé cristã, somos chamados a deixar para trás aquilo que nos separa da vida plena. Paulo escreve: “Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo” (Filipenses 3:13-14).

Muitos de nós ainda deixamos algumas pontes intactas, não por necessidade, mas por insegurança. Deixamos um caminho de volta para o que já deveria ter sido deixado para trás, seja uma relação tóxica, um vício, uma culpa que nos persegue ou um medo que nos deixa estagnados. Mas há algo libertador em destruir a rota de volta. Significa que não estamos mais disponíveis para o que nos aprisionava. É um ato de fé e confiança de que a promessa de Deus para o futuro vale mais do que o conforto de um passado conhecido.

Queimar os barcos e derrubar as pontes não é negar a história, mas sim escolher não viver preso a ela. É confiar que Deus abre novos caminhos e que, para atravessá-los, precisamos nos desprender do peso morto que carregamos. No fim das contas, tanto os barcos quanto as pontes são metáforas para o que nos impede de seguir em frente. Queimá-los ou derrubá-los significa que não há mais caminho de volta—apenas um futuro a ser construído.

Quantos barcos ainda faltam? O que ainda nos impede? Talvez seja a culpa, o medo, a ilusão do controle. Mas a verdade é que Deus já nos deu tudo o que precisamos para seguir em frente. Só nos falta decidir.

Talvez seja hora de pegar o fósforo. No fim, não é como o mundo diz que é, mas como Jesus diz que é para ser.

Love love love, Lu.

  • Ellen Pereira

    Amei o texto, Lu. A leitura veio em um excelente momento de reflexão sobre o que deixar para trás para que o novo possar vir. Obrigada pela partilha.

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